A ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva voltou a criticar o novo Código Florestal, aprovado no ano passado no Senado Federal. Ela classificou o projeto como "festival de retrocessos", com graves prejuízos para o equilíbrio ambiental do Brasil.
Marina discursou ontem no painel A Rio+20 e a construção de Cidades Sustentáveis, em Porto Alegre. A atividade integra o Fórum Social Temático e atraiu um grande público ao auditório da Faculdade de Direito da Ufrgs, que já estava superlotado antes das 14h, horário marcado para as palestras.
A líder ambientalista também disse esperar que a presidente Dilma Rousseff (PT) vete as mudanças no Código Florestal. O texto deverá ser votado no início de março na Câmara dos Deputados. Na mesma linha dos ativistas que lideraram a Marcha de Abertura do Fórum na terça-feira, ela fez cobranças à chefe da nação.
A ex-senadora quer que as promessas de campanha de Dilma sobre o meio ambiente sejam honradas. "Eu mantenho as esperanças porque a presidente se comprometeu no segundo turno das eleições (de 2010) a vetar qualquer projeto de lei que significasse aumento no desmatamento e anistia para desmatadores", lembrou.Marina ainda usou sua fala para destacar a importância da participação das cidades brasileiras na construção de alternativas mais sustentáveis. Segundo ela, as cidades consomem energia e produzem resíduos, mas estes locais são os mais adequados para a implementação de políticas na saúde e educação, por exemplo.
"Não podemos ver as cidades como um mero amontoado de pessoas, elas precisam ser vistas como um local que pode possibilitar inúmeras soluções para o nosso País. Se temos uma grande concentração de pessoas nesses espaços, é mais fácil levar políticas públicas a essas áreas do meio urbano", afirmou.
Outro participante do seminário, o teólogo e escritor Leonardo Boff criticou o uso indiscriminado da palavra "sustentabilidade". Citou o caso de muitos produtos de empresas que a usam como uma etiqueta. "A sustentabilidade está sendo facilmente usada como adjetivo e não como substantivo."
Boff afirma que muitas empresas ditas sustentáveis se interessam em produzir, enfrentar a competitividade da concorrência e gerar lucros, mas não estão realmente preocupadas com impactos causados.
"Estas empresas acabam não vendo os prejuízos ambientais e as injustiças sociais que elas ajudam a legitimar e produzir", considera o teólogo, que está lançando o livro "Sustentabilidade: o que é e o que não é".
O assessor do Ministério do Meio Ambiente Tasso Azevedo, o escritor e ativista Frei Betto, o professor Ladislau Dowbor e os representantes do Instituo Ethos Oded Grajew e Jorge Abrahão também integraram a mesa para discutir a promoção do modelo de desenvolvimento econômico sustentável e propostas para a Rio+20.
Para Frei Betto, eleições também serão importantes para a agenda ambiental de 2012
Barbara Gallo, especial para o JC
Escritor e ativista político, Frei Betto foi um dos painelistas do debate “A Rio+20 e a construção de Cidades Sustentáveis” e observou que, além da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável Rio+20, outra fator decisivo para a agenda ambiental no Brasil em 2012 será a eleição municipal. “Os eleitores brasileiros vão escolher os novos administradores das nossas cidades. Minha proposta é que se possa manter o vínculo entre os dois acontecimentos. Um deles (a Rio+20) é de dimensão internacional e global; o outro, nacional, mas estão intimamente ligados”, avaliou.
Durante o evento, foi apresentado o Programa Cidades Sustentáveis que terá uma plataforma para a sustentabilidade dos municípios. Candidatos em 2012 podem se comprometer com o projeto.
Betto repudiou o crescente preconceito contra a política em virtude da generalização de que os políticos e governantes são corruptos. Ele defendeu que a sociedade deve se interessar pelo tema e incentivou o acompanhamento das decisões dos agentes públicos e a cobrança sobre eles.
Além disso, valorizou o papel do Brasil como país anfitrião da Rio+20 e, embora tenha elogiado o desempenho da presidente Dilma Rousseff (PT), enfatizou a importância de que a população cobre medidas sustentáveis do governo federal. “Temos que levar o governo brasileiro a um compromisso cada vez mais explícito e mais consequente com esta pauta. Por enquanto, há promessas e avanços, mas também muitas ambiguidades que precisam ser evitadas e corrigidas.”
Betto criticou a debilidade da gestão da ONU e o controverso posicionamento político de chefes de Estado em relação a medidas efetivas de aprimoramento do uso de recursos naturais. “Não creio que a direção da ONU tenha a capacidade de abraçar esse compromisso e tenho minhas dúvidas se os líderes do G-8 darão alguma importância à Rio +20.”
Ele sustentou que será preciso um grande movimento social mundial para atrair a atenção da opinião pública para a conferência que acontece no Rio de Janeiro, a fim de que suscite um diálogo de visibilidade significativa. “Temos que criar desde já uma enorme mobilização de tal maneira que se faça sensível no entendimento público mundial a influência da Rio+20.”
Ao lembrar a ECO-92, Betto reafirmou a urgência da organização de movimentos em torno de um apelo social por uma economia sustentável.
“Ainda que não se equipare a ECO-92, que realmente conseguiu um grande êxito de congregar as figuras mais importantes do cenário internacional, é inerente que haja a participação da sociedade civil, dos movimentos sociais e ambientais para que a cidade do Rio de Janeiro seja transformada numa caixa de ressonância de todas as demandas que estão sendo colocadas.”