NA MÍDIA

28/08/2010 - 00:00:00 | José Miguel Soares Wisnik* | O Globo

A floresta e a escola

A floresta e a escola, para usar uma expressão visionária de Oswald de Andrade, se
encontram em Marina.

Leio no GLOBO de domingo passado que especialistas afirmam a importância de se ler
livros divertidos, cheios de cores, de figuras e de palavras para crianças a partir de 6
meses de idade.

Sim: muito antes de que elas saibam falar.

Nessa fase, a interação sonora e prazerosa com a narrativa dos adultos já estará
trabalhando na fonte do desenvolvimento da inteligência e da capacidade de
aprender, com consequências para toda a vida. A "educação infantil" seria, assim, um
processo que começa na raiz literal da infância (já que, na origem da palavra, "infante"
quer dizer "aquele que não fala").

Eu já conhecia uma ideia semelhante, de base psicanalítica, ligada à música.
A voz da mãe é uma espécie de envelope sonoro que "compreende" a criança desde os
seus primeiros meses, no sentido de contê-la dentro da sua zona de calor e de
proteção.

Para o infante as palavras da mãe ainda são música, gestos cheios de força, de
delicadeza, de ameaça e de alívio - sem significados mas cheios de sentidos. É somente
graças ao conforto e ao consolo de ser "compreendido" por essa voz que fala e canta
que o bebê poderá vir a ser um "eu", vir a ser alguém.

Teorias à parte, as duas ideias confluem: antes de tudo, a criança precisa
dramaticamente, para se constituir, de palavra e música, de imagem e de imaginação,
precisa de narrativa e canção, de conversação verbal e não verbal, precisa se ver e ser
vista, se compreender sendo compreendida. A se crer nas duas pesquisas, a
correspondência de linguagens entre adultos e crianças, quando estas ainda nem
falam, tem um valor decisivo para a estrutura psíquica e para o desenvolvimento
cognitivo.

A educação formal patina ao não entender sua vinculação com esses processos
recônditos e fundamentais, na passagem da "infância" para a "falância".
Histórias, poesia, música, arte, são integradores infraestruturais da inteligência, ou das
múltiplas inteligências. Junto com elas, o trânsito pelo campo verbal é a ferramenta
que consolida e amplia para o falante o alcance do real, permitindo o desenvolvimento
de operações de toda ordem, pragmáticas, criativas, técnicas e científicas.

É sabido que um dos índices maiores da indigência escolar brasileira reside na
incapacidade de grande parte do alunado de entender e dar sentido a um único
parágrafo. Ou seja, de fazer as articulações semânticas e sintáticas que integram uma
porção mínima de discurso.

Imensas quantidades de pobreza material e espiritual estão incluídas nisso.
É em cima desse pântano que a concepção tecnocrática de escola desfila seus números
inócuos, que a escola pública real foi abandonada à sua própria sorte ou azar, e que as
escolas privadas fizeram da obsessão pelo vestibular e da ascensão pela ascensão o
seu foco e a sua razão de ser.

Penso agora no caso de Marina Silva. De onde ela tirou a qualidade impecável da sua
fala, dado o seu letramento especialmente tardio? Marina domina com muita
elegância e leveza os registros da interlocução, articula sentidos múltiplos com
nuances incomuns no discurso político e sublinha com ênfases firmes os pontos
diferenciadores.

A linguagem é transparente e despida das concessões costumeiras, como se,
emergindo da barbárie, se afirmasse implicitamente como um documento de
civilização.

Marina é o próprio testemunho vivo da escolarização bem-sucedida, contra as imensas
dificuldades apontadas, mas também a indicação de uma reserva cultural informal
suficientemente forte para dar sustento à inteligência e à sensibilidade.

Deve ter ouvido então muita canção e história de berço, se acreditamos naqueles
nossos pesquisadores universitários, e ter partilhado na pobreza uma vivência rica o
bastante para garantir e suprir as bases de suas potencialidades intelectuais. A floresta
e a escola, para usar uma expressão visionária de Oswald de Andrade, se encontram
nela.

Lula também fez a passagem, num roteiro único, entre o agreste, a fábrica e a escola.
Maria da Conceição Tavares disse numa entrevista, ironizando a ideia comum que se
fez dele como o operário ignorante, que Lula teve em torno de si, durante anos, uma
verdadeira universidade particular a seu dispor, formada dos melhores professores,
que davam cobertura ao PT, e que sua extraordinária inteligência se aproveitou desse
luxo ao máximo - num sentido amplamente pragmático.

As oportunidades que se abrem para o Brasil na conjuntura atual dependem de um
salto qualitativo na educação estimulada pela cultura. Um país cuja população não
sabe decifrar um parágrafo não irá muito longe a lugar nenhum, e as soluções de
inclusão produtiva pela escola técnica, recobertas de justificações estatísticas, são
pequenas e autoilusórias.

Nunca será demais ver "Pro dia nascer feliz", o documentário de João Jardim sobre
escolas em todo o Brasil. A novidade de Marina, que aprofunda a de Lula, é que ela é
esse salto qualitativo em pessoa, e que suas propostas, e suas respostas, estão em
consonância com isso. É preciso prestar atenção nela.

*José Miguel Soares Wisnik é professor de Teoria Literária na USP


www.oglobo.com.br

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