Postado em 04/11/2011 por Equipe Marina | Categoria(s): Geral

Eliane Brum entrevista Célio Bermann

2 Comentários


Belo Monte, nosso dinheiro e o bigode do Sarney

*Entrevista da Eliane Brum para a Revista Época

Se você é aquele tipo de leitor que acha que Belo Monte vai “afetar apenas um punhado de índios”, esta entrevista é para você. Talvez você descubra que a megaobra vai afetar diretamente o seu bolso. Se você é aquele tipo de leitor que acredita que os acontecimentos na Amazônia não lhe dizem respeito, esta entrevista é para você. Para que possa entender que o que acontece lá, repercute aqui – e vice-versa. Se você é aquele tipo de leitor que defende a construção do maior número de usinas hidrelétricas já porque acredita piamente que, se isso não acontecer, vai ficar sem luz em casa para assistir à novela das oito, esta entrevista é para você. Com alguma sorte, você pode perceber que o buraco é mais embaixo e que você tem consumido propaganda subliminar, além de bens de consumo. Se você é aquele tipo de leitor que compreende os impactos socioambientais de uma obra desse porte, mas gostaria de entender melhor o que está em jogo de fato e quais são as alternativas, esta entrevista também é para você.

Como tenho escrito com frequência sobre a megausina hidrelétrica de Belo Monte, por considerar que é uma das questões mais relevantes do país no momento, observo com atenção as manifestações dos leitores que comentam neste espaço ou em redes sociais como o Twitter. Anotei as principais dúvidas para incluí-las aqui e assim colaborar com o debate.

Desta vez, propus uma conversa sobre Belo Monte a Célio Bermann, um dos mais respeitados especialistas do país na área energética. Bermann é professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo (USP), com doutorado em Planejamento de Sistemas Energéticos pela Unicamp. Publicou vários livros, entre eles: “Energia no Brasil: Para quê? Para quem? – Crise e Alternativas para um País Sustentável” (Livraria da Física) e “As Novas Energias no Brasil: Dilemas da Inclusão Social e Programas de Governo” (Fase). Ex-petista, ele participou dos debates da área energética e ambiental para a elaboração do programa de Lula na campanha de 2002 e foi assessor de Dilma Rousseff entre 2003 e 2004, no Ministério de Minas e Energia. Célio Bermann foi também um dos 40 cientistas a se debruçar sobre Belo Monte para construir um painel que, infelizmente, foi ignorado pelo governo federal.

Vale a pena ouvir o professor a qualquer tempo. Mas, especialmente, depois de uma semana dramática como a passada. Na quarta-feira (26/10), o julgamento da ação movida pelo Ministério Público Federal reivindicando que os índios sejam ouvidos sobre a obra, como determina a Constituição, foi interrompida e adiada mais uma vez no Tribunal Regional Federal da 1ª Região, em Brasília. Na mesma quarta-feira, chamado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) para explicar por que não suspendeu as obras de Belo Monte, o Brasil não compareceu, desrespeitando o organismo internacional e exibindo um comportamento mais usual em ditaduras. Em reportagem publicada em 20/10, o Estadão denunciou que, como retaliação por ter sido advertido sobre Belo Monte, o Brasil deixou de pagar sua cota anual como estado-membro.

Na quinta-feira (27/10), centenas de pessoas, entre indígenas, ribeirinhos e moradores das cidades atingidas, ocuparam pacificamente o canteiro de obras de Belo Monte, no rio Xingu, pedindo a paralisação da construção da usina. Foram expulsos por ordem judicial. Enquanto o canteiro de obras era ocupado por uma população invisível para o governo de Dilma Rousseff, o cineasta Daniel Tendler apresentava no Seminário Nacional de Grandes Barragens, no Rio de Janeiro, o projeto de uma megaprodução cinematográfica que se propõe a documentar as obras de Belo Monte por cinco anos. O projeto é comandado pela LC Barreto, a produtora da poderosa família Barreto, a mesma que fez “Lula, O Filho do Brasil”. Tendler, aliás, foi um dos roteiristas do filme sobre a vida do ex-presidente. Entre as repercussões da megaprodução cinematográfica sobre a megaobra do PAC no Twitter, destacou-se uma: “Os Barreto estão para o cinema nacional como os Sarney para a política”.

Ainda na semana passada, o governo federal publicou um pacote de sete portarias ministeriais com o objetivo de “destravar a concessão de licenças ambientais no país para acelerar grandes empreendimentos, como rodovias, portos, exploração de petróleo e gás, hidrelétricas e até linhas de transmissão de energia”. Ou seja: o governo caminha para anular as conquistas socioambientais obtidas na redemocratização do país.

Dias antes, em 26/10, o Senado havia aprovado um projeto de lei que retira o poder do Ibama para multar crimes ambientais, como desmatamentos. Se não for vetado pela presidente, o poder de multar passará para estados e municípios, sujeito às pressões locais já bem conhecidas. A aprovação do projeto aconteceu quatro dias depois de mais um assassinato no Pará: João Chupel Primo, mais conhecido como João da Gaita, foi morto com um tiro na cabeça, depois de denunciar ao Ministério Público Federal, em Altamira, uma rota de desmatamento ilegal na reserva extrativista Riozinho do Anfrísio e na Floresta Nacional Trairão, área do entorno de Belo Monte. Como de hábito, o Congresso decide os rumos do país desconectado com o que acontece na vida real para além do aquário brasiliense.

No momento histórico em que recursos como água e biodiversidade se consolidam como o grande capital de uma nação, o Brasil, um dos países mais beneficiados pela natureza no planeta, corre em marcha à ré. O cenário que você acabou de ler tem no centro – como obra simbólica e estratégica – Belo Monte, a maior obra do PAC. A seguir, parte de minha conversa de quase três horas com o professor Célio Bermann, em sua sala no Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP.

Clique aqui para a íntegra da entrevista da jornalista Eliane Brum com o professor Célio Bermann.

Eliane Brum: Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de um romance – Uma Duas (LeYa) – e de três livros de reportagem: Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo). E codiretora de dois documentários: Uma História Severina e Gretchen Filme Estrada. Escreve para a Revista Época às segundas-feiras.

Postado em 20/03/2010 por Marina | Categoria(s): Geral

A discussão sobre o pré-sal é oportunista?

9 Comentários


Na sexta-feira, 19 de março, antes de palestrar no 3o Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental, em Cuiabá, a senadora Marina Silva participou de uma entrevista coletiva de imprensa. Leia abaixo as questões feitas e ouça as respostas da senadora.

Temas nacionais:

  • O pré-sal não está sendo uma questão oportunista por ser ano eleitoral? E também gostaria de ouvir a senhora sobre o licenciamento do ministro da Cultura, que saiu criticando o PV e a senhora porque o partido teria ficado mais conservador, citando a aliança do PV com o PSDB no Rio.

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

  • A adesão do professor Eduardo Giannetti da Fonseca foi interpretada por muita gente como uma guinada à direita. Qual é a sua opinião sobre macroeconomica, carga tributária, controle de inflação, política cambial? Queria que a senhora fizesse uma explanação a respeito disso e o que levou à entrada do professor Giannetti para a sua pré-campanha?

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

  • A senhora tem uma proposta específica para trabalhar a educação ambiental? Qual é o papel da mídia nesse processo?

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

  • Por que não se aprova o financiamento público de campanha?

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

  • Em termos de políticas públicas, qual é a sua proposta para a comunicação?

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

Temas regionais:

  • Qual é o posicionamento do PV em relação às eleições majoritárias no MT já que a sigla está dividida, uma parte defende o apoio junto ao PSDB, outra parte propõe caminhar junto com o PSB?

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

  • Como a senhora avalia a gestão do governador Blairo Maggi?

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

  • Quando da emissão da licença ambiental paras as usinas do rio Madeira, a equipe técnica do Ibama não recomendou a licença e, no entanto, a direçao do órgão, contrariando a orientação da sua equipe técnica, concedeu a autorização. Agora, no processo de licenciamento da usina de Belo Monte no rio Madeira, o mesmo processo acontece, a equipe técnica não recomenda a concessão da licença e, no entando, de forma política, ela é emitida. A legislação ambiental não vale mais para projetos de infraestrutura na Amazônia?

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

  • Hoje a senhora criticou a demora na discussão do processo de zoneamento aqui no Estado de Mato Grosso. Várias entidades também criticaram os substitutivos que foram propostos. Como a senhora vê essa discussão?

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

  • Qual caminho a senhora pretende percorrer para dialogar com os representantes do agronegócio?

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

Postado em 10/02/2010 por Marina | Categoria(s): Geral

É possível gerar energia de maneira sustentável

16 Comentários


O Daniel Oliveira deixou o seguinte comentário sobre o artigo Pandora é aqui?, que fala da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte:

“Acho que os índios e animais tem todo o direito de ficarem onde estão… No entanto, o caos social vai se instalar no país se nada for feito com relação a geração de energia elétrica. Qual a sua proposta para a geração de energia a curto/médio/longo prazo para suprir essa mesma demanda?”

Bom, isso não é coisa que se responda em poucas palavras.

A geração de energia a médio e longo prazo depende da realização de um planejamento energético. Isso significa pôr em prática uma série de ações como:

- Estimular ações do Proinfa, o Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica, para desenvolver outras fontes de energia que temos grande potencial, como eólica e biomassa.

- Agilizar os trabalho de revisão de inventário de aproveitamentos hídricos e de avaliação integrada de bacia para dispor de maior número de projetos que sejam viáveis tecnicamente para o licenciamento.

- Implantar programas de melhoria de eficiência do sistema para reduzir as perdas de energia, que são muito altas, desde a geração, até a transmissão e distribuição.

- É preciso também incentivar as pessoas e as empresas a economizarem energia, usando os meios de comunicação e a estrutura de educação formal e informal.

- Dar cada vez mais força para a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), para que ela possa antecipar projetos e um olhar sobre a matriz energética brasileira, tendo como referencia o potencial que o país tem e o crescimento que queremos ter.

É a partir dessas combinações que se deriva uma política energética de médio e longo prazo.

O termo geral é pensar uma matriz energética limpa e diversificada. Devemos evitar ao máximo usar as fontes não renováveis como é o caso do diesel, carvão e gás. Investir em fontes diversificadas de energia, por sua vez, evita a depêndencia de uma única fonte.

Se dependermos só da hidreletricidade, por exemplo, com o agravamento dos fenômenos de mudanças climáticas, poderemos sofrer graves consequências se houver secas e os reservatórios baixarem.