O fato de as pessoas aprovarem o que está sendo feito por um governo não significa que elas queiram eternizar quem esteja no poder.
O Chile acaba de dar uma demonstração disso. Os chilenos avaliavam bem o governo, mas elegeram um candidato de outro partido apostando que esse candidato manterá as conquistas e integrará novas alternativas.
As pessoas são sábias em relação àquilo que chamamos de alternância de poder, porque ela promove o equilíbrio. Se não, as forças políticas se acomodam e o patrimonialismo se instala cada vez mais.
A expectativa de alternância do poder faz com que quem assume o poder tenha que fazer cada vez mais e melhor para ser aceito.
Em meu entendimento, a Justiça já demonstrou que há, sim, um uso político dessas inaugurações, uma vez que o presidente Lula já foi multado duas vezes por ter tratado a ministra Dilma Rousseff como candidata nesses eventos. Os Poderes da nação têm que cumprir a lei. O exemplo tem que vir de cima. É muito negativo ter, o tempo todo, essa sensação de extrapolação do cumprimento da legislação eleitoral. O PT sempre reclamou muito desse tipo de conduta. É lamentável que agora isso esteja acontecendo dessa forma.
O país precisa de um programa de infraestrutura mais abrangente do que o PAC, que não é um programa, é uma colagem de obras. O que tem sido feito é um gerenciamento dessas obras, para ver como está o andamento, a aplicação de recursos, as especificações técnicas. O que se tem, de fato, é um gerenciamento dessa colagem.
Um programa voltado para a infraestrutura deve levar em conta a dinâmica e a expectativa de crescimento que o país terá para os próximos 20 ou 30 anos. Boa parte das demandas compreendidas pelo PAC são legítimas, mas outras não ligam ‘lé com cré’.
Cito, um exemplo do meu estado, a BR-319. É uma estrada de cunho político e eleitoreiro. De um lado, nós temos a BR-163 que liga Cuiabá (MT) a Santarém (PA) para o escoamento da produção. De outro lado, temos a hidrovia do rio Madeira, também utilizada para escoamento. Querem abrir outra rodovia com 400 km no meio da mata virgem investindo bilhões de Reais e dizem a função é que as pessoas atravessem de Manaus para Rondônia de carro. Dizem que não haverá atividade econômica ao longo desse trecho. Se esse é o caso, então, seria mais fácil subsidiar as passagens aéreas para as pessoas viajarem nesse trecho.