Postado em 03/12/2011 por Equipe Marina | Categoria(s): Geral

Correção à matéria de O Globo

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Marina Silva em nenhum momento defendeu auditoria internacional para as obras de Belo Monte, ao contrário do que foi publicado em matéria do jornal O Globo de hoje. Ela defendeu, sim, uma auditoria independente.

Abaixo, nota encaminhada ao jornal.

Marina Silva esclarece que, diferentemente do que foi publicado com destaque na edição deste sábado (03/12/2011) do jornal O Globo, sob o título “Belo Monte: Marina defende auditoria externa”, em nenhum momento defendeu a realização de uma “auditoria internacional” para as obras de Belo Monte. O que Marina, sim, defendeu, em entrevista ao jornalista Agostinho Vieira, foi a realização de uma “auditoria independente”, com ampla participação do setor acadêmico e da sociedade brasileira. Diante do imenso custo e impacto socioambiental da obra e da polêmica em torno de sua construção, é importante um olhar externo ao da máquina pública, que seja capaz de dar mais visibilidade e transparência ao processo.

Postado em 04/11/2011 por Equipe Marina | Categoria(s): Geral

Eliane Brum entrevista Célio Bermann

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Belo Monte, nosso dinheiro e o bigode do Sarney

*Entrevista da Eliane Brum para a Revista Época

Se você é aquele tipo de leitor que acha que Belo Monte vai “afetar apenas um punhado de índios”, esta entrevista é para você. Talvez você descubra que a megaobra vai afetar diretamente o seu bolso. Se você é aquele tipo de leitor que acredita que os acontecimentos na Amazônia não lhe dizem respeito, esta entrevista é para você. Para que possa entender que o que acontece lá, repercute aqui – e vice-versa. Se você é aquele tipo de leitor que defende a construção do maior número de usinas hidrelétricas já porque acredita piamente que, se isso não acontecer, vai ficar sem luz em casa para assistir à novela das oito, esta entrevista é para você. Com alguma sorte, você pode perceber que o buraco é mais embaixo e que você tem consumido propaganda subliminar, além de bens de consumo. Se você é aquele tipo de leitor que compreende os impactos socioambientais de uma obra desse porte, mas gostaria de entender melhor o que está em jogo de fato e quais são as alternativas, esta entrevista também é para você.

Como tenho escrito com frequência sobre a megausina hidrelétrica de Belo Monte, por considerar que é uma das questões mais relevantes do país no momento, observo com atenção as manifestações dos leitores que comentam neste espaço ou em redes sociais como o Twitter. Anotei as principais dúvidas para incluí-las aqui e assim colaborar com o debate.

Desta vez, propus uma conversa sobre Belo Monte a Célio Bermann, um dos mais respeitados especialistas do país na área energética. Bermann é professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo (USP), com doutorado em Planejamento de Sistemas Energéticos pela Unicamp. Publicou vários livros, entre eles: “Energia no Brasil: Para quê? Para quem? – Crise e Alternativas para um País Sustentável” (Livraria da Física) e “As Novas Energias no Brasil: Dilemas da Inclusão Social e Programas de Governo” (Fase). Ex-petista, ele participou dos debates da área energética e ambiental para a elaboração do programa de Lula na campanha de 2002 e foi assessor de Dilma Rousseff entre 2003 e 2004, no Ministério de Minas e Energia. Célio Bermann foi também um dos 40 cientistas a se debruçar sobre Belo Monte para construir um painel que, infelizmente, foi ignorado pelo governo federal.

Vale a pena ouvir o professor a qualquer tempo. Mas, especialmente, depois de uma semana dramática como a passada. Na quarta-feira (26/10), o julgamento da ação movida pelo Ministério Público Federal reivindicando que os índios sejam ouvidos sobre a obra, como determina a Constituição, foi interrompida e adiada mais uma vez no Tribunal Regional Federal da 1ª Região, em Brasília. Na mesma quarta-feira, chamado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) para explicar por que não suspendeu as obras de Belo Monte, o Brasil não compareceu, desrespeitando o organismo internacional e exibindo um comportamento mais usual em ditaduras. Em reportagem publicada em 20/10, o Estadão denunciou que, como retaliação por ter sido advertido sobre Belo Monte, o Brasil deixou de pagar sua cota anual como estado-membro.

Na quinta-feira (27/10), centenas de pessoas, entre indígenas, ribeirinhos e moradores das cidades atingidas, ocuparam pacificamente o canteiro de obras de Belo Monte, no rio Xingu, pedindo a paralisação da construção da usina. Foram expulsos por ordem judicial. Enquanto o canteiro de obras era ocupado por uma população invisível para o governo de Dilma Rousseff, o cineasta Daniel Tendler apresentava no Seminário Nacional de Grandes Barragens, no Rio de Janeiro, o projeto de uma megaprodução cinematográfica que se propõe a documentar as obras de Belo Monte por cinco anos. O projeto é comandado pela LC Barreto, a produtora da poderosa família Barreto, a mesma que fez “Lula, O Filho do Brasil”. Tendler, aliás, foi um dos roteiristas do filme sobre a vida do ex-presidente. Entre as repercussões da megaprodução cinematográfica sobre a megaobra do PAC no Twitter, destacou-se uma: “Os Barreto estão para o cinema nacional como os Sarney para a política”.

Ainda na semana passada, o governo federal publicou um pacote de sete portarias ministeriais com o objetivo de “destravar a concessão de licenças ambientais no país para acelerar grandes empreendimentos, como rodovias, portos, exploração de petróleo e gás, hidrelétricas e até linhas de transmissão de energia”. Ou seja: o governo caminha para anular as conquistas socioambientais obtidas na redemocratização do país.

Dias antes, em 26/10, o Senado havia aprovado um projeto de lei que retira o poder do Ibama para multar crimes ambientais, como desmatamentos. Se não for vetado pela presidente, o poder de multar passará para estados e municípios, sujeito às pressões locais já bem conhecidas. A aprovação do projeto aconteceu quatro dias depois de mais um assassinato no Pará: João Chupel Primo, mais conhecido como João da Gaita, foi morto com um tiro na cabeça, depois de denunciar ao Ministério Público Federal, em Altamira, uma rota de desmatamento ilegal na reserva extrativista Riozinho do Anfrísio e na Floresta Nacional Trairão, área do entorno de Belo Monte. Como de hábito, o Congresso decide os rumos do país desconectado com o que acontece na vida real para além do aquário brasiliense.

No momento histórico em que recursos como água e biodiversidade se consolidam como o grande capital de uma nação, o Brasil, um dos países mais beneficiados pela natureza no planeta, corre em marcha à ré. O cenário que você acabou de ler tem no centro – como obra simbólica e estratégica – Belo Monte, a maior obra do PAC. A seguir, parte de minha conversa de quase três horas com o professor Célio Bermann, em sua sala no Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP.

Clique aqui para a íntegra da entrevista da jornalista Eliane Brum com o professor Célio Bermann.

Eliane Brum: Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de um romance – Uma Duas (LeYa) – e de três livros de reportagem: Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo). E codiretora de dois documentários: Uma História Severina e Gretchen Filme Estrada. Escreve para a Revista Época às segundas-feiras.

Postado em 23/07/2011 por Equipe Marina | Categoria(s): Geral

Meus chutes, aguardando o planejamento*

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Suspeito que, após planejar, talvez nunca valeria a pena sequer discutir Belo Monte, enquanto usinas como as do Madeira poderiam ser adiadas

Debates desencontrados nascem da falta de transparência e de planejamento na política energética.

Uns reclamam dos impactos de uma obra, enquanto outros respondem sobre a necessidade dela: diálogos paradoxais, entre surdos. Belo Monte é caso emblemático, e longe de ser único. Formular perguntas lógicas ajuda: se não para resolver, pelo menos para focar os conflitos sobre o que interessa. Até quando houver planos de obras, em vez de política energética, o debate seguirá surreal.

A primeira pergunta é sobre demanda, que não é linear, nem necessariamente proporcional ao crescimento. Moldar demanda -em modalidades e prazos- é função primordial da política energética e implica investir para definir a agenda da geração.

Para tanto, é essencial fixar metas e padrões ótimos de intensidade (consumo por unidade de produto).

Em vez de uma revolução tecnológica de eficiência na indústria, o plano decenal oficial prevê manter a atual intensidade até lá.

A segunda é sobre o caminho mais barato e rápido para atender a cenários de demanda que não sejam projetados a partir do passado, o que torna de antemão obsoleto nosso futuro. Nenhuma energia nova, de qualquer fonte, compete com a que já geramos e jogamos fora.

Antes de investir em geração adicional, precisa-se aproveitar o que existe, reduzindo perdas em todos os segmentos, com destaque para transmissão, onde passam de 20%.

O plano decenal prevê manter as taxas de perda atuais.

Aí vem a terceira pergunta, a respeito do conjunto de fontes de geração necessário após aproveitar as “low hanging fruits”, as oportunidades mais disponíveis.

Esse conjunto deve ser diverso, pela segurança do abastecimento.

Boa notícia para o Brasil é que esse desafio seria prioritário só no final desta década, permitindo investir em condições mais vantajosas.

Nos campos eólico e solar, contaríamos com avanço tecnológico-industrial nacional que iria anteceder investimento maciço nessas fontes.

Em biomassa e dejetos, poder-se-á ganhar escala e baratear tais opções, inclusive aproveitando os recursos vultosos que serão poupados com o fim da cobrança da amortização das usinas velhas.

Caso se tornem necessárias algumas grandes hidrelétricas, haverá tempo de preparar, com cinco a sete anos de antecedência, a governança dos territórios onde elas se inserem e considerar apenas os projetos mais eficientes.

Só discutiríamos os impactos, ou como evitar as selvagerias socioambientais do rio Madeira, se e quando forem respondidas as perguntas do planejamento.

Suspeito que, após planejar, talvez nunca valeria a pena sequer discutir Belo Monte, enquanto usinas como as do Madeira poderiam ser adiadas para daqui a dez anos, com preinvestimento social, ambiental e de presença do Estado.

O meu, de fato, não deixa de ser um chute. Igual aos chutes que levam a deslocar R$ 50 bilhões de dinheiro público para tanto, inviabilizando outros investimentos. E a defender que a selvageria seria o preço a pagar para fazer agora o que nem sequer sabemos se jamais seria competitivo.

*Roberto Smeraldi, jornalista, é diretor da Oscip Amigos da Terra – Amazônia Brasileira e autor do Novo Manual de Negócios Sustentáveis (Publifolha).