Discurso de Edivan Martins feito em Natal (RN), dia 11 de maio, durante a entrega do título de cidadã natalense para Marina Silva.
Marina Silva: título de cidadã natalenseEra o ano mais sorridente da década de 50. O planeta ebulia lavas políticas, que esfriadas petrificavam a liberdade. Os guerrilheiros da Sierra Maestra, comandados por Fidel e Guevara, destronam Fulgêncio Batista; a França renova sua constituição; a China dá o grande salto com Máo Tse Tung; o papa João XIII convoca o Vaticano II e dispara-se a corrida espacial.
No Brasil, depois de nove anos foragido, Luiz Carlos Prestes, reaparece no famoso programa de Flávio Cavalcanti; Brizola encampa o ITT e Raimundo Faoro, escreve obra decisiva para a formação de um pensamento nacional: Donos do Poder.
Os tiros ensurdeciam as serras cubanas, pás e picaretas ecoavam na construção de Brasília, a indústria automobilística batia forte, produzindo DKVs e Fuscas, e o violão de João Gilberto batia, como um anjo, anunciando o nascimento da bossa nova.
Na frondosa floresta, cercada por cursos d’água, escondia-se a colocação de Breu Velho. Somente as teimosas estrelas atreviam-se a acender o seringal do Bagaço, fuçando a escuridão das matas. Lá, tudo isso chegava tarde, as notícias remavam preguiçosamente pelas as águas do rio Juruá, que pra banhar os seringais, vem deslizando nas escarpas dos andes peruanos, enfrentando um penhasco de paisagem selvágica, caminhos de sinuosidade fascinante e perigosa, até depois de 453 metros, deitar-se tonto no paxiúba, molhar-se de energia, para cortar todo o Acre e brincar no Solimões.
Naquele dois de fevereiro de 58 houve choro e rebuliço na floresta. Caçadores seguiam rastros de onça, o porco do mato batia o queixo acuado com os latidos do cão farejador, ouvem-se tiros da espingarda com espoleta 50, a cotia se entoca no oco do pau, a panela entirnada no fogão a lenha exala o tempero dos pirarucus e tambaqui com tucupi e molho de mandioca. A lamparina pendurada na parede de paxiúba clareia o franzino corpo da filha de dona Maria e seu Pedro Augusto.
Era festa da natureza. Nascimento de Maria Osmarina Marina Silva Vaz de Lima, filha da floresta. Marina nasce no ano da harmonia, da alegria, de vitórias e das liberdades. Ano da juventude transviada, de Jorge Amado despontando com Gabriela, Cravo e Canela, da revelação de Pelé, da primeira conquista do Brasil na Copa do mundo e de Guarniere brilhando nos palcos com a peça eles não usam black tie.
Nasce nos anos JK. No Brasil de 70 por cento de brasileiros morando em áreas rurais.
A simples tapera erguida por seu Pedro representava um sonho de dias melhores, trabalho duro para criar uma família de 11 filhos. Ramos de uma genealogia enraizada no sertão nordestino que migrou nas carroças da sobrevivência para as trilhas dos seringais.
Vida difícil e precária no interior da floresta. Nascida na era do bambolê, não teve direito aquele simples brinquedo; água gelada das geladeiras de estolas vison, nem pensar, era água fria do pote; notícias, só meses e meses depois para quem possuía um radinho de pilha da Philco, artigo de luxo na época.
Ainda menina cortou seringa, brocou mato, plantou, caçou e pescou para pagar uma dívida de seu pai, contraída nos barracões do lugar.
Aos 15 anos Marina perde uma forte referência de vida. O carinho, o conselho, a luz, o abraço afetuoso, a lição de perseverança, a bênção diária de sua mãe, Maria Augusta. Com a morte da mãe, ela assume o comando da casa.
Na necessidade, aprende a lição do dividir.
É também perto dos quinze anos que aprende a ler, escrever e interpretar o movimento dos ponteiros indicadores das horas. Senta nos bancos do Mobral – Movimento Brasileiro de Alfabetização. Trabalha como empregada doméstica. Só aos 16 anos conhece a cidade. As gameleiras e oiticicas em copas; agora são selvas de pedras. As curvas asfaltadas, os meandros dos rios que serpenteiam os seringais; o canto silvestre da passarada e os rosnar dos animais, a buzina estridente que reverbera no trânsito louco das metrópoles.
Na cidade grande, vai buscar a cura pra uma hepatite, diagnosticada como malária. A vida de cabocla rende outra hepatite e uma contaminação por metais pesados. Mas ela não se abate. Enfrenta adversidades com paz interior. Aprende a ler, faz educação integrada, supletivo, colegial e antes dos vinte anos prepara-se para o vestibular. Passa no curso de história. Começa a militância nas comunidades eclesiais de base, no movimento sindical. Funda, juntamente com Chico Mendes, a CUT no Acre, milita no partido revolucionário comunista – PRC, é candidata a deputada federal, vereadora, deputada estadual mais votada e senadora enfrentando governadores e empresários. E torna-se ministra do Meio Ambiente.
Pode ser cansativo enumerar seus quilométricos feitos Marina, mas você é incansável na conquista. Seu corpo franzino suporta doenças graves, correntezas em terrenos íngremes porque és alicerce de Deus. Tens a formação numa escola de vida balizada nos evangelhos que ensinam a transformar parábolas em lições; água em vinho; Saulo em Paulo.
Shalon, sua primeira filha, fez aniversário ontem, pertinho do dia das mães. Trouxe a grande lição de ser mãe. Você era estudante de história. Não tinha salário, carteira assinada, plano de saúde, previdência, nada. Igual a um exército de mulheres pobres e indigentes, você viveu o dilema da vida e da morte. Sem forças para fazer nascer a menina, chegou a ouvir: “ela está morrendo, vamos salvar a criança”. E o fórceps deu vida à paz: Shalon.
Moara é liberdade em tupi guarani. Veio junto com o mandato de vereadora. Voava de uma assembléia para uma greve, de uma cidade pra outra na campanha de Lula pra presidente, acompanhando a militância da mãe.
Para não incorrer em desperdícios no apartamento funcional em Brasília ouvia suas advertências: “não risque a mesa do erário”, “apague a luz que o erário briga”. Um dia aborrecida com tanta restrição enfrentou a mãe e disparou: “Oh mãe, eu quero voltar pro Acre, quero sair dessa casa. Esse erário é muito chato”.
Mayara, a terceira filha, veio com a constatação de uma contaminação por mercúrio. Marina não fez o tratamento para não afetar a gravidez. Sofreu. Aos oito meses tinha apenas 47 quilos, não tinha mais unhas nem sobrancelhas. Sua vista turva, devido a doença só permitiu que ela visse uma parte do rosto da filha. Mas um momento de superação vencido.
Mayara tem a firmeza da mãe. O Globo estampou o nome dela no jornal. Acontecia uma sessão no senado quando o presidente apertou a cigarra e tentou enquadrar a menina no regimento interno: de acordo com o artigo 27, parágrafo terceiro, não é permitida a presença de pessoas estranhas no plenário. Mayara não saiu. O presidente repete a citação regimental e na persistência, chama os seguranças. A menina grudou na cadeira do senado e ganhou a solidariedade da imprensa. Deve ter ido marcar a poltrona.
Danilo, o filho homem, publicitário talentoso, que traz no sangue a herança do exercício das asas.
Construiu sua vida à base do terçado, entrecortando caminhos nas matas, desprovidas de estradas.
Das pirâmides faraônicas enxergou a divisão de classes. Dos evangelhos e dos livros de Marx sincronizou o humanismo, a justiça social e a luta proletária com a teologia da libertação. Dos seringais extraiu a lição de organização das flores pequenas e reunidas em panículas amplas, guardiãs de ricas sementes.
Sua vida de fé remonta as comunidades eclesiais de base. Uma trajetória de luta, de superação, de dedicação ao seu povo é uma predestinação. Marina você é uma predileta de Deus.
Quando você nascia, Oscar Niemayer riscava Brasília. Os brilhantes traços do maior arquiteto do Brasil inspiravam-se em coincidência com os desígnos do maior arquiteto do universo.você é um projeto novo, uma trilha de esperança, uma humilde lamparina, que rasgando a escuridão da floresta, torna-se luz a clarear os destinos dos oprimidos, dos fracos e dos injustiçados.
Dos estreitos igarapés, partirás como raiz de sacupemba, abrigando os anseios da nação brasileira; com a bravura dos índios aquiris e com o espírito dos acreanos que garantiram as posses de terra e de exploração da borracha construirás no coração de cada um de nós, o obelisco de defesa do planeta e de respeito à natureza.
Essa é mais uma comenda em sua carreira de mulher lutadora e vitoriosa. De tantas homenagens, condecorações e títulos nacionais, internacionais que ilustram seus mais nobres arquivos, receba o de cidadã de Natal.
Tenha certeza, que de todos, nenhum tem nas letras, a areia brilhante de nossas dunas; nenhum respira o ar mais puro das Américas; nenhum tem na assinatura a tinta santa , as mirras, ouro e incenso dos três reis magos; nenhum tem uma estrela piscando, namorando o potengi; nenhum representa o nascer, a manjedoura, natal; natal , é também a única cidade da América Latina, administrada sob a égide de uma visão voltada para o meio ambiente, por uma companheira sua que comunga dos mesmos ideais, que veste a mesma camisa, que tem comandado os destinos desta cidade com zelo, coragem e ousadia. A prefeita Micarla de Sousa.
Esta condecoração carrega a simplicidade do natalense e a representatividade do palácio Frei Miguelinho.
Receba o maior louro que o povo de natal pode oferecer aos que lutam pela paz, aos que pisam nosso chão com mensagens de esperança, aos que nesse solo pregam o bem do nosso planeta.
Receba das mãos de Micarla de Sousa, as honrarias merecidas e sinta-se filha do morro do careca, do exuberante verde que nos veste e do casamento harmonioso entre as águas calmas do potengi e o nosso mar.
Leve para os acreanos, para o brasil e para o mundo e guarde no melhor recanto de seu coração o que há de mais nobre, mais sagrado e mais sincero do povo dessa terra: o sorriso aberto, o coração irmão e a hospitalidade.