Postado em 05/07/2010 por Equipe Marina | Categoria(s): Eco

Faltam empresários na política, diz Guilherme Leal

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Em entrevista exclusiva ao site EXAME, o sócio da Natura e candidato a vice-presidente na chapa de Marina Silva afirma que não há mágica para desvalorizar o câmbio

Luís Artur Nogueira, de EXAME.com

São Paulo - “Do mesmo jeito que a gente fala que a educação é muito importante para ficar somente nas mãos dos educadores, a política é muito importante para ficar apenas nas mãos dos políticos profissionais.” A afirmação é do empresário Guilherme Leal, que há 40 dias afastou-se da Natura para estrear na política como candidato a vice-presidente na chapa de Marina Silva (PV).

Leal já fez várias viagens pelo Brasil neste período, acompanhou convenções partidárias e, a partir desta terça-feira (6) - data oficial do início de campanha dos candidatos - terá uma agenda intensa de compromissos. Na tarde da última quinta-feira (1), recebeu a reportagem do site EXAME para uma entrevista de 40 minutos em seu escritório particular na Rua Amauri, conhecida pelos famosos restaurantes, no bairro nobre do Itaim, em São Paulo.

Vestindo um terno preto e com apenas um iPhone sobre a mesa, falou sobre preconceito na política, as comparações com o vice-presidente José Alencar, gestão pública e meritocracia, entre outros temas. Sobre as críticas dos empresários ao câmbio valorizado, foi categórico: “Não existe mágica. Precisamos eliminar as volatilidades cambiais com intervenções parciais e adotar uma política fiscal efetivamente séria.”

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Site EXAME - O que o sr. já aprendeu nesses 40 dias de política?

Guilherme Leal - Eu aprendi que a gente tem que ser mais flexível, tem que ter resiliência, uma capacidade de lidar com o imponderável, lidar com a arte da negociação e do desconhecido. A gente não consegue planejar e ter as coisas sob controle como a gente gostaria de ter nas nossas empresas. É muito desafiante e entusiasmante. Para um empreendedor - e eu me julgo mais do que um empresário, um empreendedor -, eu acho que a política é muito interessante. É cheia de desafios, ainda mais numa jornada como a nossa que não parte de uma estrutura consolidada, de um projeto que vem de longa data, que, na verdade, traz uma proposta inovadora a partir de uma base relativamente pequena e que propõe um novo jeito de fazer política. Acho que para quem viveu a experiência de, em cima de uma proposta inovadora, construir uma empresa, eu vejo algumas similitudes, pelo menos no grau de entusiasmo e nas dificuldades. Longe de comparar o Brasil com uma empresa – obviamente a complexidade e a dimensão dos problemas são de outra natureza e não me julgo detentor de nenhuma fórmula mágica que possa ser replicada -, mas o tipo de desafio que se coloca tem algumas semelhanças interessantes.

Site EXAME – O sr. sente que há preconceito com quem está na política?

Leal - Sinto, sim. Fui advertido por muitos amigos. Acho que existe no Brasil - não sem algumas razões -, um certo desencanto dos brasileiros com a política tal como ela vem sendo vivida. Recebi muitos conselhos do tipo “cuidado; é perigoso; tem de tudo; pra que você vai fazer isso?;  aonde é que você vai se meter; você tem uma história de vida;”. Realmente recebi muitos conselhos que não estimulavam muito a minha entrada nesse universo novo, mas eu achei que era uma decisão que eu tinha que tomar exatamente para quebrar isso, experimentar. Eu não tenho nenhum objetivo, senão discutir o país do que jeito que a gente quer. Achei que essa convocação não poderia ser negada e que, de alguma forma muito pouco arrogante, talvez eu pudesse dar uma contribuição para discutir o país.

Site EXAME – A chapa que elegeu o presidente Lula tem José Alencar, um empresário. Isso é um diferencial na campanha?

Leal - José Alencar é uma grande unanimidade nacional. É um exemplo de vida para os brasileiros, como empresário, vice-presidente e figura humana. Agora, as semelhanças entre a escolha do presidente Lula, em 2002, e de Marina, em 2010, não sei se são da mesma natureza. José Alencar já era um político antes de aceitar a convocação de Lula. Eu sou mais estranho à política do que era o José Alencar naquele momento. E, por outro lado, a minha identificação com a plataforma de Marina Silva em termos de olhar para os desafios ambientais como uma grande responsabilidade e, ao mesmo tempo, uma grande oportunidade para o Brasil no século XXI, é uma razão adicional que me aproximou dela, algo que talvez não existisse naquele momento, em 2002, quando havia outras diversas razões que funcionaram muito bem para a dupla Lula e José Alencar e que eu espero que funcione muito bem - por diferentes razões - para a dupla Marina Silva e Guilherme Leal. Então, eu acho que tem algumas semelhanças, mas tem circunstâncias que são bastante diversas.

Site EXAME – O sr. acredita que faltam empresários na política? A participação é muito tímida?

Leal - Eu acredito que faltam, sim, empresários. Do mesmo jeito que a gente fala que a educação é muito importante para ficar somente nas mãos dos educadores, a política é muito importante para ficar apenas nas mãos dos políticos profissionais. Com o meu gesto, eu gostaria de contribuir para que outras lideranças empresariais, sociais e intelectuais dessem um passo para se envolver com a política, que precisa de uma renovação, de uma oxigenação. A política é importante para a vida nacional. Precisamos de um Estado mais eficiente, mais transparente, e precisamos de uma vida pública realmente mais direcionada para o sentido republicano de cuidar do público, que tem que ser cuidado por todos e não por ninguém. Nesse sentido, eu acho que, sim, mais empresários poderiam e deveriam se envolver, mas não apenas empresários. Eu não sou daqueles que acham que se o país for cuidado apenas por empresários será muito melhor, mas acho que os empresários têm contribuições relevantes a dar para a vida política brasileira.

Site EXAME - Como o empresário Guilherme Leal avalia a gestão pública no Brasil, incluindo todas as esferas de governo?

Leal - Eu acho que a gestão pública no Brasil tem muito a avançar. Quando eu tinha 25 anos, eu trabalhei durante quatro anos na Fepasa, uma empresa pública. Trabalhei muito seriamente e entusiasmadamente e fui demitido - sou muito grato àqueles que me demitiram (neste momento, Guilherme Leal bate três vezes na mesa de madeira) - e tinha tomado uma decisão de não trabalhar mais em empresa pública porque eu não queria ter um selo de um gestor de empresa pública e ficar dependendo de favores políticos para conseguir minhas colocações. Então, eu resolvi que eu seguiria meu caminho natural que acabou sendo minha experiência de Natura. Acho que fiz uma boa escolha. Eu tinha um sonho de contribuir com o país e achei que o caminho da iniciativa privada seria o melhor. Fazendo um olhar retrospectivo, acho que, de alguma forma, eu contribuí mais criando uma empresa que ajudou a mostrar que, fazendo as coisas sérias - com responsabilidade social e responsabilidade ambiental -, a gente pode conquistar êxito econômico, que uma coisa não se contradita à outra. Acho que há um espaço enorme para o aperfeiçoamento da gestão pública e creio que isso é indispensável para que o Brasil possa de fato entrar para o rol das nações desenvolvidas e propiciar qualidade de vida para os seus cidadãos. Com a carga tributária que se tem, o que o Estado devolve em serviço para a população brasileira está muito aquém do desejado. Há problemas nos três âmbitos (união, estados e municípios). É óbvio que há ilhas de excelência dentro do Estado brasileiro, como o Banco Central, o BNDES e o Itamaraty, mas, na média, os municípios brasileiros são absolutamente despreparados para fazer uma gestão minimamente competente. Peter Drucker (morto em 2005, era considerado um guru dos negócios) dizia, pouco antes de morrer, que o grande desafio do século XXI chamava-se gestão, não das empresas, mas das organizações privadas, governamentais e não-governamentais. Sustentabilidade é eliminar desperdícios e uma boa gestão é aquela que aloca de forma eficiente os seus recursos. Isso em qualquer organização e o Estado é uma mega organização, portanto, a gestão é um fator crítico para que uma sociedade possa atingir seus objetivos comuns. Existe um desafio gigantesco para que a gente possa evoluir. Isso demanda transparência e exige investimentos na formação do capital humano. Enquanto a gente não tiver educação de qualidade da base à universidade, nós não teremos um serviço público de qualidade. Isso obviamente com foco, medição, monitoramento e resultados claramente definidos.

Site EXAME – Nesse contexto, a meritocracia seria positiva no setor público?

Leal - Meritocracia precisa ser aplicada com muito cuidado. Eu acho que a diferenciação entre aqueles que fase um bom trabalho e um mau trabalho sempre deve existir, mas nós sabemos que sistema ruins - e a crise financeira de 2008 mostrou claramente que um sistema agressivo pode causar sérios problemas - podem ter consequências danosas. Sou, sim, favorável aos sistemas que estimulam os bons desempenhos e eliminam aqueles que não se comprometem com os resultados que devem ser alcançados, mas isso deve ser feito com muita consciência e muita clareza.

Leia aqui a íntegra da reportagem publicada dia 5 de julho no Portal Exame

Postado em 05/07/2010 por Equipe Marina | Categoria(s): Eco

Mata refeita pode trazer mais lucro, afirma USP

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Experimento no interior paulista vai testar recomposição de reserva legal Ideia é criar floresta que possa produzir madeira com mais rentabilidade que pastagem; estudo afeta debate sobre lei

Por Claudio Angelo, enviado especial a Iracemápolis (SP)

O ecólogo Sérgius Gandolfi caminha na floresta e para diante de um jequitibá de 15 metros de altura. São pouco mais de 16h, mas já começa a escurecer sob aquele trecho de mata atlântica em Iracemápolis, interior paulista.

Gandolfi aponta o chão, onde brotam “filhas” do jequitibá e de outras árvores. “Isso mostra que a floresta está funcionando”, diz.

O que é uma grande notícia: afinal, há apenas 23 anos, aquilo que hoje é mata fechada era um canavial.

A mata ali é resultado de replantio numa área de preservação permanente (APP).

Essa e outras experiências de reposição de mata nativa em áreas devastadas estão no foco de uma polêmica nacional nesta semana.

Hoje, em Brasília, o deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB-SP) deve apresentar a uma comissão especial da Câmara a versão final de seu projeto de reforma no Código Florestal, a lei de 1965 que protege as florestas do país.

O projeto de Rebelo visa adequar a maior parte dos agricultores do Brasil à lei.

Para isso, deve reduzir a proteção às APPs (margens de rio, encostas, várzeas e topos de morro) e dispensar cerca de 90% dos proprietários de terra de replantar florestas na reserva legal -fração de uma propriedade que deve ser mantida como mata.

A anistia a desmatamentos já feitos na reserva legal é uma antiga bandeira dos ruralistas. “É um custo com o qual nós não podemos arcar e tem eficiência questionável do ponto de vista biológico”, argumenta o pecuarista Assuero Veronez, da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil).

Refazenda

Sérgius Gandolfi e seus colegas do Lerf (Laboratório de Ecologia e Restauração Florestal) da USP de Piracicaba querem provar o contrário.

Segundo eles, é possível repor ao menos parte dos 43 milhões de hectares de reserva legal estipulados pelo código atual. E dá até para fazer dinheiro com isso.

A ideia está sendo testada em uma área de 300 hectares da fazenda Guariroba, em Campinas. Ali, eles plantaram há quatro anos uma floresta que, esperam os cientistas, será a primeira reserva legal para proteção da biodiversidade e produção de madeira da mata atlântica.

O Lerf criou um método que permite “recriar florestas tropicais com alta diversidade em qualquer lugar”.

O truque: plantar pelo menos 80 espécies, numa ordem tal que árvores nobres, como jequitibás e cedros, possam crescer à sombra de plantas de desenvolvimento rápido, como quaresmeiras.

Não é barato. Implantar uma reserva custa de R$ 10 mil a R$ 12 mil por hectare em dois anos. A cana rende R$ 500 por hectare/ano.

“Você precisa de 20 anos da renda da cana para poder pagar um hectare de floresta”, diz Giselda Durigan, pesquisadora do Instituto Florestal e uma das maiores autoridades do país em restauração. Ela é cética em relação à reposição de reserva legal.

Mercado futuro

Os pesquisadores do Lerf apostam em tirar essa diferença transformando as reservas legais em polos produtores de madeira.

Após dez anos, seria possível cortar as árvores pioneiras para fazer lenha e carvão vegetal. Após 20 a 30 anos, viria a exploração das árvores nobres. Nesse período, o produtor que refizesse a mata poderia ganhar até R$ 500 por hectare/ano com a produção de madeira.

“É duas vezes mais do que a renda de uma pastagem”, diz Ricardo Rodrigues, coordenador do Lerf.

No quadragésimo ano, com as árvores nobres da propriedade já maduras, a renda subiria para quase R$ 2.000 por ano no pior cenário, e R$ 3.500 no melhor.

“A reserva legal pode ser um grande negócio”, diz Gandolfi. Ele lembra que os Estados do Sudeste hoje são os maiores consumidores de madeira nativa, que vem quase toda da Amazônia. Produzir tal madeira em São Paulo valeria a pena.

E nem é preciso brigar com lavouras rentáveis como a cana e a laranja. Segundo o grupo, há na mata atlântica 7 milhões de hectares de áreas de baixa aptidão agrícola que poderiam ser aproveitadas.

“Nas áreas mais agricultáveis do Estado de São Paulo você tem aproveitamento de 70% da propriedade no máximo”, diz André Nave, do Lerf. “O resto são trechos de baixa aptidão, com reflorestamento de exóticas [plantas que não são nativas do país, como o eucalipto] ou áreas abandonadas, que poderiam voltar a ser reserva legal.”

Durigan compara a perspectiva de lucrar com a reserva legal à venda de indulgências pela Igreja Católica: pague agora, receba no Além. “No livro está tudo muito bonitinho, mas não sei se na prática funcionaria. Depende de uma série de providências, depende do mercado.”

Publicado originalmente dia 5 de julho de 2010 no jornal Folha de S. Paulo.

Postado em 05/07/2010 por Equipe Marina | Categoria(s): Eco

Empresas apostam em embalagem “verde”

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Itens de beleza e brinquedos serão embalados em plástico feito de cana, após inauguração de fábrica da Braskem. Produção em unidade do RS será de 200 mil toneladas/ano; Natura, Johnson & Johnson e Estrela usarão material

Por Carolina Matos, de São Paulo

A dois meses da inauguração da primeira fábrica do Brasil que vai produzir em larga escala plástico à base de etanol, da Braskem, empresas brasileiras se preparam para lançar comercialmente produtos com a nova matéria-prima.

A fábrica da petroquímica em Triunfo, no Rio Grande do Sul, terá capacidade para produzir 200 mil toneladas do bioplástico por ano.

No setor de cosméticos, a Natura já planeja um selo para identificar que a embalagem do refil do sabonete cremoso de erva-doce, vendido a partir de outubro, será 100% de resina de cana.

Apesar de existirem outros tipos de bioplásticos no mercado -como o feito à base de milho-, essa é a primeira experiência da Natura com resina verde.

“Isso porque os materiais disponíveis não tinham a mesma resistência física que o plástico derivado de petróleo. E o de cana tem”, diz Victor Fernandes, diretor de desenvolvimento de produtos e de embalagens da empresa.

Essa similaridade entre as matérias-primas também foi o que levou a Johnson & Johnson a testar o plástico de etanol nas embalagens do filtro solar Sundown.

O resultado foi considerado tão satisfatório que a empresa programou o uso do material, no verão 2011/12, em toda a linha regular de Sundown, a maior da marca.

“E, no futuro, o bioplástico pode ser utilizado também em outros produtos da Johnson & Johnson”, diz Katia Reis, gerente de sustentabilidade da empresa.

RECICLAGEM

O plástico de etanol pode ser reciclado da mesma forma que o de petróleo. Isso não acontece, entretanto, com o plástico de milho, que é biodegradável.

“Assim, o plástico de milho se torna um problema no momento do descarte, já que o Brasil não tem uma indústria de compactação de resíduos desenvolvida para aproveitar o material biodegradável”, diz Teddy Lalande, coordenador de sustentabilidade da Dixie Toga, fabricante de embalagens.

Lalande afirma que, depois de utilizado, o plástico de milho acaba indo para um aterro comum.

“Lá, sem o tratamento adequado, o produto sofre uma rápida decomposição e libera na atmosfera gás metano [CH4], 20 vezes mais prejudicial que o carbônico [CO2] em relação ao efeito estufa.”

CUSTOS

A fabricante de brinquedos Estrela também já utiliza o plástico de etanol nas peças do jogo Banco Imobiliário. E pretende aumentar a tiragem do produto.

Carlos Tilkian, presidente da empresa, não revela quais são os custos de produção, mas admite que o bioplástico é mais caro que o convencional, de petróleo.

“Por enquanto, estamos subsidiando a diferença”, afirma o executivo.

“Só a partir de 2011, depois que a Braskem tiver definido a política de preços em relação ao bioplástico, vai ser possível fazer uma avaliação mais precisa de valores”, completa Tilkian.

Publicado originalmente dia 5 de julho de 2010 no jornal Folha de S. Paulo.