Postado em 28/12/2009 por Equipe Marina | Categoria(s): Artigos

Janeiro por inteiro

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EM BREVE entraremos em janeiro, mês que recebeu esse nome em homenagem a Janus, que na mitologia romana é o deus dos inícios. Representado por duas faces em oposição, olha também para o que é findo, para o passado. É o encarregado de abrir a porta para o novo, mas lembrando sempre que as portas têm simultaneamente dois lados: a entrada é ao mesmo tempo a saída.

Sob a metáfora de Janus entramos em 2010, um ano como poucas vezes se viu na política brasileira, tantos são os significados presentes, de passado e de futuro. Alguns dos protagonistas desse ano incomum tentam o impossível. No cenário meticulosamente engendrado pelas duas principais candidaturas oficiosas, de situação e de oposição, Janus está subtraído de uma de suas caras, condenado a ter recortada de sua substância divina a metade da saída, do novo.

A intenção parece ser apenas medir os dois passados, mesmo em prejuízo do futuro que nos une.

Quer-se passar pela porta sem abri-la. Assim, o Janus mutilado da política brasileira fica incompleto para exercer sua função de integrar num mesmo sistema o status quo e a mudança, o ido e o porvir. Em lugar da refinada reflexão mitológica sobre o momento de passagem, entra a soberba imposição de uma queda de braço entre autoavaliações hiperbólicas, a competição entre quem fez mais e melhor aos próprios olhos, como se essa satisfação narcísica fosse um fim em si mesma, acima de tudo, inclusive do próprio país. A isso se reduziu a política? Perdida sua capacidade de antecipar o futuro, é apenas uma contabilidade forçosamente distorcida entre projetos publicitários de poder, onde o enaltecer-se às vezes se sobrepõe ao reconhecimento do continuum que nos trouxe até aqui e das alternativas para seguir adiante.

O Brasil não pode aceitar esse jogo reducionista e vaidoso, preocupado apenas em medir o passado, sem instrumentos que permitam projetá-lo para o futuro e fazer escolhas. Jogo no qual há que se adotar um lado ou outro, de forma maniqueísta, como se fossem depositários excludentes de todas as virtudes. Saindo da mitologia romana para o ensinamento bíblico do livro de “Gênesis”, de tanto olhar para trás podemos nos condenar a virar estátua de sal, como no triste episódio da mulher de Ló.

É preocupante a tentativa de subtrair dos cidadãos a autonomia para fazer suas escolhas, porque o que lhes está sendo apresentado não é a informação completa e necessária para assumir a plena responsabilidade pela decisão tomada. O que podemos desejar para 2010 é, no mínimo, que Deus nos ajude a ultrapassar o portal do futuro com nossos próprios pés.

Marina Silva é professora de ensino médio, senadora (PV-AC) e ex-ministra do Meio Ambiente.

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo.

Postado em 21/12/2009 por Equipe Marina | Categoria(s): Artigos

Mais do que palavras

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A PALAVRA segue como senhora das construções humanas. Os bons discursos unem razão e emoção, o argumento lógico e o apelo do espírito. Feitos por líderes carismáticos e conscientes de suas responsabilidades, motivam, convencem, dão alento e direção. Quem não se lembra dos discursos de Winston Churchill convocando a Inglaterra para vencer as forças de Hitler? Ou da voz firme de Martin Luther King, confrontando as velhas estruturas racistas que moldavam a sociedade norte-americana?

O presidente Lula, ainda que muitas vezes polêmico, de fato discursa bem. Na COP-15, dentre todos os líderes mundiais, foi dele a fala mais vigorosa e emocionante. Sua chegada deu uma guinada na posição brasileira. Como eu mesma dissera lá, concordou que contribuir com um fundo mundial é uma forma inteligente de pressionar os países mais desenvolvidos a contribuírem mais. E, apesar do acordo real ter ficado para a COP-16, em 2010 no México, ajudou a manter o mínimo de sinalização de compromisso político e econômico com o bem comum.

Mas o que faz com que discursos se perpetuem na história é o fato de não se distanciarem da ação. Se palavras visam apenas conquistar apoio momentâneo da população, elas se perdem na próxima curva. Se expressam propósitos reais, obrigam à coerência. E, tal qual um roteiro, geram premissas.

A primeira delas, no contexto brasileiro, é impedir que a legislação ambiental seja desmontada no Congresso Nacional, como tem acontecido. O que inclui revogar o decreto que anistia quem desrespeitou a legislação ambiental. O compromisso proferido pelo presidente Lula lá fora não se coaduna com acordos político-eleitorais que têm sacrificado o meio ambiente para satisfazer aliados da hora.

É preciso também agir rápido para aprovar o zoneamento agroecológico da cana-de-açúcar, regulamentar a política de mudanças climáticas e aprofundar as mudanças necessárias para sustentar a posição brasileira na próxima conferência do clima. E redirecionar recursos públicos que hoje, por meio de investimentos pesados do BNDES, por exemplo, viabilizam projetos em termelétricas e em pecuária predatória na Amazônia. E, ainda, defender efetivamente os biomas brasileiros.

O que o discurso do presidente pede é a adoção de um modelo novo de desenvolvimento sustentável, que mobilize todos os atores políticos, econômicos e sociais. Por enquanto, temos a pressão da sociedade para tornar realidade o discurso de Copenhague. Falta integralizar a parte da coerência do poder público. Aí fechará a conta entre discurso e prática.

Marina Silva é professora de ensino médio, senadora (PV-AC) e ex-ministra do Meio Ambiente.

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo.

Postado em 07/12/2009 por Equipe Marina | Categoria(s): Artigos

Culpa e vergonha

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NESSES DIAS de novos e velhos escândalos na política aqui por Brasília, lembrei-me de um colóquio do psicanalista Ricardo Goldemberg, autor do excelente livro “Psicanálise e Política”, que acompanhei com pessoas participantes de um dentre os vários grupos de estudos de uma escola de psicanálise da cidade.

Ao final de sua fala, talvez por estar no centro do poder, Goldemberg fez uma breve, mas muito relevante e significativa referência à diferença entre nosso “ethos” político ocidental e o dos asiáticos.

Não comparou culturas, mas evidenciou as diferenças de percepção e sentido do ato de cometer erros em cada uma das cosmovisões, sobretudo no que diz respeito ao trato da coisa pública.

Se bem entendi, na tradição asiática, o sujeito situa-se no mundo pelas mãos, olhar e escuta do grupo ao qual pertence -família, colegas do trabalho, comunidade-, o que resulta num peso incomum, para o coletivo, de tudo o que o indivíduo faz. Já na tradição ocidental, o referencial que orienta nossa conduta moral, ética e social está centrado quase que exclusivamente nas virtudes ou defeitos dos indivíduos.

Isso implica grande diferença na forma como as duas tradições lidam com o erro, a fraude ou os malfeitos em geral que campeiam no reino da política. Na primeira, o sujeito é reconhecido pela maneira como o grupo o aceita e empodera.
Assim, se qualquer atitude ou ação desabonadora individual se transforma em prejuízo material ou moral também para o coletivo, quando ela acontece, é fonte de grande e quase irremediável vergonha.

Na segunda, ainda que o pertencer a um grupo seja igualmente condição para situar-se no mundo, os erros e virtudes são predominantemente focados no indivíduo.

A atitude ou ação desabonadora que alguém fizer recai sobre ele mesmo. O prejuízo moral e ético, motivo ou não de culpa, terá um peso majoritariamente pessoal.

Lá, quando erram, a vergonha perante o grupo ao qual devem honra e satisfação é tanta que muitos chegam ao extremo de acabar com a própria vida.

Aqui, quando não tentam tapear a inteligência alheia com justificativas esfarrapadas, às vezes apelam a uma segunda chance, com juras de “lição aprendida”. Isso quando não desaparecem por um tempo necessário ao esquecimento e voltam para repetir os mesmos erros e contravenções.

Seria muito bom para o Brasil se, nos casos que envolvem a ética pública e o dinheiro do contribuinte, para além da apuração dos fatos, julgamento rápido, isento e severa responsabilização criminal, houvesse arrependimento sincero, menos culpa e mais, muito mais, vergonha.

Marina Silva é professora de ensino médio, senadora (PV-AC) e ex-ministra do Meio Ambiente.

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo.