Postado em 24/08/2012 por Equipe Marina | Categoria(s): Artigos

Hora da prova

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A cada dois anos, com os resultados do Ideb, renovamos esperanças e frustrações, comemoramos avanços e lamentamos fracassos na educação.

As opiniões se dividem, dependendo da posição política. Muitos usam a educação como pretexto para constituir ou destituir alguém. Mas os que a têm como valor superior, acima das divisões e interesses políticos, sabem que o caminho é longo e tratam de manter a isenção e o equilíbrio.

Para esses, a avaliação não é o fim do caminho, mas uma oportunidade de analisar, corrigir e aperfeiçoar. Se for o caso, fazer grandes mudanças.

É o caso, sim. O Brasil melhora lentamente. Se quiser evitar o sacrifício de outra geração, tem que se concentrar mais, como aluno em recuperação. O Ideb mostra onde devem ser as maiores mudanças.

Confira a íntegra do artigo da Marina publicado originalmente na Folha de São Paulo.

Postado em 10/08/2012 por Equipe Marina | Categoria(s): Artigos

Tempo, tempo

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A política chega ao “miolo do vulcão” e seus agentes parecem o avesso de Midas: aspiram produzir os grandes relatos da história, mas tudo o que tocam, como ironizou Peter Sloterdijk, resulta algo “involuntariamente pequeno”.

O julgamento, na mais elevada corte, de uma denúncia de corrupção, conhecida como mensalão, em vez de firmar os pesos na balança da Justiça mais parece atiçar a fogueira das vaidades e reforçar os vícios que lhe deram origem.

Uma CPI que deveria punir a continuidade renitente dos esquemas criminosos no Estado e estancar a cachoeira da corrupção vira um show de vergonhas. Ali, os que têm algo a dizer ficam em silêncio e os que não têm gritam.

Confira a íntegra do artigo da Marina publicado originalmente na Folha de São Paulo.

Postado em 07/08/2012 por Equipe Marina | Categoria(s): Artigos

Barro, logos, jogos

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Sei agora como se sente um(a) atleta quando ganha uma medalha, quando a causa a que tanto se dedicou é vitoriosa, quando seu esforço é reconhecido, quando sua pátria o(a) acolhe e vibra com seu feito. Estar na abertura das Olimpíadas, ao lado de símbolos mundiais da paz e da justiça, foi uma honra que compartilho e agradeço a Deus e a todos, em emoção incontida. Ali, com filhos de outros países reunidos em nome das grandes causas da humanidade para portar uma bandeira de união e paz, senti que o povo brasileiro ganhava uma medalha olímpica, por ser o país em que tem sido alentador o esforço de conservar a natureza.

Esse esforço é feito por milhões de pessoas, poucas conhecidas e muitas anônimas, algumas com mandato público e milhares com apenas cara e coragem, nas grandes cidades e nos sertões, em todos os tempos de nossa história. Estavam todos ali comigo, na memória emocionada dos que conheci de perto.

Meu pai, nas noites escuras do seringal, o ouvido colado ao rádio, esperando nos programas em português da BBC de Londres alguma notícia que valorizasse sua luta de soldado da borracha no meio da floresta. Chico Mendes e todos os companheiros que viveram uma história de amor e sangue nas entranhas do Brasil. Meu filho e minhas filhas, pequenos, esperando em casa uma mãe que voltava cansada de intermináveis reuniões. Meu tio, que saía de casa e passava meses nas matas para aprender com os índios a ciência da natureza.

Hélio, Matias e todos os artistas populares extraindo do barro, das folhas e do próprio corpo, a mensagem da esperança. E as milhares de crianças e jovens que conheci em minhas andanças pelo Brasil, enfrentando desde cedo as dificuldades da vida, filhos que não fogem à luta. A eles estes versos antigos, que verti num momento de derrota e tristeza: Porque viemos do pó, precisamos de verbo mais do que de pão. Quando estivermos no pó, levanta-nos por Tua mão.

Ouvi falar de um rei, num tempo antigo, que se fazia acompanhar de um sábio para sussurrar-lhe ao ouvido, tanto na derrota quanto na vitória, a prudente advertência: “Tudo passa, esse momento também passará”. Tomei a lição para mim e procuro ter sempre a palavra ao alcance da mão em todos os momentos da vida. Muitas vezes os versos me acodem, porque são esses momentos decisivos que nos lembram nossa origem e nos fazer elaborar nosso destino. Sou uma mulher brasileira, nascida na Amazônia, filha da miscigenação de negros e brancos, seringueira e agricultora, professora de história, erguida pela fé, irmã de todas as mulheres e homens que comungam comigo do mesmo Pai e do mesmo pão, os mesmos frutos de uma terra que nos cabe zelar para que não se acabe.

Quando reconhecemos quem somos, sem os adornos da vaidade, podemos conhecer os outros – as pessoas, os povos – sem desconfiança ou temor. Será possível empreender assim uma nova ordem democrática, nacional e internacional? A utopia, que moveu os séculos passados, não fará parte da herança das novas gerações neste novo e incerto tempo? Aos que buscam compreender as diferenças como parte da igualdade, outros versos antigos nascidos em outro momento difícil: Sei nem sempre ser aceito o fruto de minha ação. Mas me disponho expô-lo ao crivo d’outra razão. (E a semelhança preservo, na comunhão com meu próximo, no logos que em mim carrego.)

Nos jogos, desde a abertura até o último segundo de cada disputa, aprendemos que sempre há lugar para o imprevisível. Por isso, é sempre possível superar e agradecer, respeitar e reverenciar a todos, começando pelo oponente, e encontrar no meio do conflito o essencial que nos une. O que temos, entre nós brasileiros, entre nós humanos, é muito mais que uma aliança ou coligação, mais até que um pacto social.

Temos uma fraternidade, uma comunhão da vida. Esse é o fundamento ético de um mundo sustentável. Quem dele se afastar, por ansiedade de dinheiro ou poder, por qualquer angústia do ego, estará apenas demorando a chegar ao novo território de paz e liberdade que está sendo criado, aos poucos, pelos que colocam essa ética à frente de seus ditos e suas ações. Aos que transferem os conflitos humanos, inevitáveis, para a arena do esporte, transformando a luta entre pessoas e nações num encontro de paz, meus novos versos feitos – desta vez num momento feliz – em noite insone de emoção, na viagem de volta:

Ginguem meninos de bronze, dancem meninas de prata. Vocês juntos são o ouro, o verde de nossas matas; são as 27 estrelas, do céu azul em cascata. Nuvens brancas voem alto, chovam louros em nossa pátria.

 

MARINA SILVA

Foi senadora da República e ministra do Meio Ambiente

 

Publicado originalmente no Jornal Correio Braziliense 07.08.2012