* Por Marina Silva e Eduardo Viola - Exame Especial CEO Rumo à Economia Verde
A realização da conferência Rio+20 oferece uma excelente oportunidade para discutir com consistência e profundidade A governança ambiental global e a transição para uma nova economia que contribua para promover o desenvolvimento sustentável em todas as suas dimensões — social, cultural, ambiental, econômica, política e ética. Apesar dos esforços da maioria dos governos para separar a decisiva questão da mudança climática da agenda da conferência, ela está na base dos desafios da humanidade. A estabilidade do clima é um pressuposto da civilização humana desde a revolução neolítica. Os números gigantescos da população (7 bilhões), do PIB mundial (60 trilhões de dólares) e das emissões de gases estufa (50 bilhões de toneladas de CO2 equivalente) ameaçam gravemente sete dos dez limiares planetários: os ciclos do nitrogênio e do fósforo, a mudança climática, a erosão da biodiversidade, a acidificação dos oceanos, as mudanças do uso do solo e a escassez de água doce. Por isso é fundamental mostrar claramente a situação atual do sistema internacional e as dificuldades para levar adiante essa agenda.
No sistema internacional atual existem três superpotências (Estados Unidos, União Europeia e China) e cinco grandes potências (Japão, Índia, Brasil, Rússia e Coreia do Sul). Elas são as principais responsáveis pelos problemas ambientais e climáticos que enfrentamos porque são grandes emissoras de gases de efeito estufa e exploram recursos naturais em grande escala. Elas também têm a capacidade de encaminhar sua solução porque possuem capital humano e tecnológico para mudar o paradigma econômico, determinante na construção de uma governança global à altura dos desafios atuais.
As extremas dificuldades para avançar no momento se devem ao fato de que, das oito potências, apenas uma, a União Europeia, tem uma posição consistente (mesmo que insuficiente), enfatizando a necessidade de criar uma organização mundial ambiental. A Coreia do Sul e o Japão têm posições próximas às da União Europeia, porém mais tímidas. No extremo oposto conservador, encontram-se a Rússia e a Índia, que, por diferentes razões, não se comprometem com a governança global e com a transição para o baixo carbono.
Os Estados Unidos são um país extremamente dividido e polarizado, com um campo reformista liderado pelo presidente Barack Obama, favorável a posições mais responsáveis, e com outro campo conservador, constituído pelo Partido Republicano. Isso acaba produzindo efeitos deletérios tanto internamente quanto sobre o sistema internacional. As eleições gerais deste ano podem significar uma oportunidade de evolução, mas seria necessário priorizar uma nova política climática e energética.
A China teve uma posição extremamente irresponsável até 2008, mas, desde então, vem avançando a passos largos em investimentos de baixo carbono e de maior responsabilidade nas negociações internacionais, apesar de ainda ser insuficientes. As duas superpotências conservadoras (Estados Unidos e China) se escondem uma atrás da outra para justificar os limites de suas posições.
O Brasil se encontra numa posição contraditória