
A ideia de lugares melhores para se viver tem ganhado força em todo o mundo. Espaços de diálogo para pensar cidades mais sustentáveis nascem em diversas localidades. Brasília ganhou sua versão na semana passada (15), oficialmente: Movimento Nossa Brasília. Depois de mais de um ano de mobilização e articulação, finalmente o movimento mostrou a cara. A proposta é integrar diferentes pessoas, organizações e redes do Distrito Federal para discutir e propor uma cidade mais justa, sustentável e melhor para ser viver. No lançamento do movimento eram aguardadas aproximadamente 50 pessoas, porém esse número de aproximou de 200.
O movimento faz parte da Rede Social Brasileira por Cidades Justas e Sustentáveis, que é composta por mais de 40 cidades. O “Nossa Brasília” também tem como característica ser uma articulação em prol do fortalecimento da democracia participativa e, por isso, estimula um diálogo permanente e ampliado com pessoas ligadas a organizações da sociedade civil, universidades e empresas de distintas localidades do Distrito Federal.
Algumas das metas do movimento são a busca por: convivência equilibrada com o meio ambiente, acesso à água limpa e abundante, mobilidade não poluente e fluida, comunicação democrática, liberdade cultural e planejamento urbano sustentável. O movimento é autônomo, sem ligação com partidos políticos, governos ou confissões religiosas. É aberto a qualquer pessoa que acredite que uma Brasília sustentável é possível. “Como vamos cuidar do espaço que nos acolhe?”, perguntou a arquiteta e Pró-reitora de Natureza e Meio ambiente da Unipaz, Regina Fittipaldi, na dala de abertura. Regina instigou os participantes a pensarem sobre o sentimento de pertencimento a cidade. “Estamos construindo esse sentimento. Para gerar transformação esse movimento deve enraizar os valores que trazemos hoje”, afirmou.
Na sequência, Maurício Broinizi, secretário executivo da Rede Nossa São Paulo, falou sobre a Rede Social Brasileira por Cidades Justas e Sustentáveis e a importância da formação de movimentos que reinventem as relações com as cidades e estimulem a cidadania participativa. Mostrou exemplos que já estão sendo implementados em todo o mundo. Após Broinizi, Elvis Bonassa, do Instituto Kairós, abordou a importância que a construção de indicadores tem para o efetivo controle social sobre as políticas públicas.
Marina Silva, ex-senadora e ex-ministra do Meio Ambiente, participou do lançamento e elogiou a iniciativa brasiliense. Confira abaixo duas perguntas respondidas por Marina.
No painel de Cidades Sustentáveis do Fórum Social Temático 2012 (Porto Alegre) a senhora falou sobre crise de valores. Nascimento de movimentos como esse é um resgate desses valores que estavam esquecidos em nossa sociedade?
Marina: É uma espécie de realização de valores, porque não nos basta ter valores, é preciso que eles se transformem em processos e que esses processos levem a criação de novas estruturas ou que preserve as boas estruturas que se têm. Geralmente, para que qualquer coisa possa acontecer, é fundamental no processo social a visão que se processe as estruturas. Estamos numa crise de valores e questionar a forma insustentável como estão organizadas as cidades, onde, por exemplo, não há saneamento básico para a maioria da população, não há mobilidade adequada, o trânsito, um estilo de vida que cada vez mais é estressante, o espaço público ocupado de forma inadequada, quer dizer: devemos materializar os valores da sustentabilidade em ações concretas.
Leonardo Boff já afirmou que a sustentabilidade deve ser discutida como um substantivo e não como um adjetivo, muitas vezes ligado apenas a interesses comerciais. Como podemos incitar a população de Brasília a participar e perceber essa discussão?
Marina: Brasília já tem uma coisa boa: ela é um mosaico do Brasil. Aqui tem muita gente de muitos lugares, no meu caso, é minha segunda cidade. Nesses últimos 16 anos eu pude perceber como esse mosaico se mobiliza e, obviamente, sair dessa queixa estagnante do que não é certo, do que não é bom, do que não queremos, para tentar ajudar a viabilizar de forma coletiva, horizontal com as pessoas – e não para as pessoas, a saída para alguma ação produtiva e criativa e que a gente possa desbloquear o nosso fazer e o nosso sentir. Por outro lado, eu entendo a sustentabilidade não como uma maneira de fazer as coisas, mas como uma maneira de ser. Temos que pensar a sustentabilidade como um estilo de vida, pensando no presente e no futuro, isso nos possibilitará transitar para um processo de mutação.
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Fonte: Instituto Marista de Solidariedade