Postado em 22/08/2010 por Equipe Marina | Categoria(s): Extra

‘Beleza é Marina’

13 Comentários


Leia abaixo o artigo “Reclame” de Caetano Veloso publicado na edição deste domingo (22) do jornal “O Globo”:

Achei que Serra ia perder quando o vi com a Sabrina Sato. A esta altura da campanha, isso parece ter sido há muito tempo. Ele dava uma de cafajeste: tentava parecer informal, igual a todo mundo, “popular”. Esboçava, de modo desagradável, desmentir a fama de sério, de acadêmico. Tentava parecer o que não é. Bem, talvez ele seja mesmo cafajeste, mas não o é como homem público. Via-se ali já o equívoco de querer parecer grosso como Lula. Mas Lula é grosso do modo mais chique que pode haver. Seus erros de português, suas metáforas cafonas, mesmo suas caneladas imperdoáveis em assuntos internacionais são a glória do Brasil. E, apesar de considerar de fato imperdoáveis falas como as respostas sobre os dissidentes cubanos, não usei a palavra “glória” aqui com nenhum traço de ironia. Que o Brasil tenha eleito e aprove um presidente de origem humilde e pouco letrado é prova de que queremos mover-nos socialmente e de que não somos dominados por preconceitos linguísticos.

Mas Serra representaria todo o espectro da sociedade brasileira que, além de incluir os que têm preconceitos linguísticos, conta com muita gente que simplesmente está cansada do ideologismo desavisado dos que apoiam tudo do PT, do sintoma de regressão que representa o aspecto populista do culto a Lula e do fisiologismo que é desenfreado porque serve ao grupo que supostamente quer o bem do povo. Serra seria o homem sério, o ex-ministro da Saúde que demonstrou competência e coragem. Sua origem humilde poderia ser sempre relembrada, mas para dizer (como Marina pode, com muito mais razão) que vir da pobreza não resulta sempre num mesmo estereótipo. Serra deveria ter-se oposto claramente a Lula, reafirmando-se como o homem intelectualizado que é, como a alternativa nítida ao lulo-petismo. Mas já se esboçava, na cafajestada com Sabrina, o “Zé” do horário gratuito.

Sou baiano, mas não sou publicitário. Dos sambas obras-primas de Caymmi que eram ao mesmo tempo jingles turísticos de Salvador nos anos 40 ao hilário hino do carnaval axé chamado “We are Bahia”, o baiano mostra que tem pendor para o reclame. Nos anos 70, meu irmão Rodrigo foi a Minas. Voltou com brados de protesto: “Minas tem muito mais arquitetura bonita do que a Bahia, as igrejas e as comidas são mais requintadas; se os mineiros fossem espalhafatosos como os baianos, não dava nem para entrarmos no páreo.” João Santana é meu colega (foi letrista do Bendengó, de que Gereba era a cabeça musical) e meu camarada desde o final dos 70. Todos o chamavam de Patinhas, por causa do personagem de Walt Disney. Ele não tem nenhuma parecença física com o pato milionário. Seus amigos antigos devem ter visto outras semelhanças entre ele e o velhote dos cifrões. Sempre me fascinou o verso final de uma canção sua: “E haverá deuses na Terra e um homem no céu.” O próprio Tropicalismo (primo da arte pop e irmão de Godard) usava elementos da publicidade. Houve quem maldosamente julgasse tratar-se de pura jogada mercadológica. Eu próprio pensava o contrário, de modo que me recusei sempre a fazer anúncio ou licenciar canções minhas para tal. Então minhas penadas sobre campanha eleitoral são essencialmente amadorísticas.

Por que comento algo ligado a elas, então? Porque gosto de entrar nos assuntos que fazem a conversa da cidade. E porque sempre suponho que algo de minhas percepções pode produzir sutis diferenças. Gosto de pertencer – e meu pertencimento ao Brasil é algo de grande importância para mim. Não é nacionalismo. Em Santo Amaro, aos 17 anos, eu me dizia sueco. Gostava de saber que no país escandinavo uma mulher casada que tivesse um eventual caso extraconjugal não só não seria apedrejada: ela simplesmente conversava sobre o caso com o marido, e ambos procuravam atravessar o ciúme e decidir seguir juntos ou separar-se; amava que as meninas pudessem ter experiências sexuais com namorados ou amigos sem que isso lhes destruísse a vida; que a diferença entre os mais pobres e os mais ricos fosse mínima. No Brasil, esta ainda é obscena; a “legítima defesa da honra” só foi descartada quando eu já tinha um filho grande; e só de pouco tempo para cá as meninas podem trazer seus namorados para dentro de seus quartos. Eu ainda me sinto um estrangeiro. Não me identifico com a corrupção cordial nem com a hipocrisia racial. Mas meu compromisso com fazer o Brasil – e não qualquer outro lugar – modificar-se profundamente para tornar-se ele mesmo é talvez o que mais me move. As conversas de apagar a ideia de estado-nação me soam fora do tempo. Servem a outras coisas que não ao que fingem servir. Servem a nações hegemônicas ou a internacionalismos de classe que só sabem produzir nações ainda mais opressoras. Já eu quero que tudo mude. Por isso para mim conta se Serra foi cafa.

Marina disse certo sobre Lula e Dilma: “O Brasil não precisa ser uma sociedade infantilizada. Querem infantilizar os brasileiros com essa história de pai e mãe.” O Brasil não precisa. Mas ainda se presta a isso. Lula é pai. Dilma não tem nada de maternal. Mas é a mulher dele. Ele é que a nomeia mãe. A vitória dela será dele. Mas não apenas ele tem mais crédito do que débito com o Brasil com que eu sonho: também ela pode ser mais técnica do que mãe quando agarrar o poder. Em vez de temer ser o antiLula, Serra deveria marcar sua diferença. Podia não vencer, mas daria medidas a Dilma. Beleza é Marina.

Comentários

  1. Flávia
    14/09/2010

    Mais uma vez Caetano Veloso assume o papel de profeta dessa nação, ao declarar seu voto a Marina. Quantas vezes ele já falou como profeta, frases imemoráveis tais como “O Haiti é aqui”. Agora novamente ele assume essa identidade ao declarar seu voto a Marina. Queira Deus que ela possa ir para o segundo turno! Queira Deus que muitos brasileiros possam ouvir seu profeta Caetano Veloso.

  2. Daniel Prado
    07/09/2010

    Caetano e simpatizantes de Marina, li este artigo somente neste 7 de setembro. É alentador e motivador ver o texto do homenino baiano. Ano passado, durante um show aqui no Rio Grande do Sul, tive oportunidade de dar um abração e um beijo no Caetano, e maior a minha alegria quando apontava já no ano passado seu apoio a nossa querida Marina, sinalizando a necessidade de se construírem novos discursos e práticas na política brasileira. É Beleza Pura, é Marina, Caetano, somos todos nós sonhadores de um mundo melhor e certamente possível.
    Daniel Prado – Rio Grande/RS

  3. Norma Veras
    30/08/2010

    Gostei muito da materia e concordo com Caetano. Mas Beleza mesmo é votar na Marina.

  4. Norma Veras
    30/08/2010

    Concordo plenamente com Caetano. Amei a materia. Beleza mesmo é votar na Marina

  5. Maurinho Freitas
    29/08/2010

    Caetano vc nesse artigo fez uma reflexão do que está acontecendo no nosso país…Serra realmente não teve e não esta tendo postura de quem busca mudança, querendo mostrar ao povo brasileiro que é amigo do Lula…indiscutível a melhor candidata para o Brasil é a Marina Silva pela história e postura que vem tomando ao longo da sua vida!!!…Caetano vc precisa unir mais os artistas e os intelectuais do Brasil para levar a Marina ao segundo turno.

  6. Sergio Colotto
    27/08/2010

    Ponderado, sensível, centrado e revolucionário ao mesmo tempo, esse sempre será Caetano Veloso. Sem maniqueísmos, a não ser aos olhos daqueles obtusos que não querem ver nada além de si mesmos. Esse artigo é igualmente bom para todos lerem. Caetano é um cara que soma.

  7. Thiago
    26/08/2010

    Não percamos as esperanças!

    VAI MARINA! CONFIAMOS EM VOCÊ!

    Minha opinião: http://odisseiaatual.blogspot.com/

  8. Gilvan Torquato
    26/08/2010

    Sábias palavras!

  9. Dinalva Heloiza
    26/08/2010

    Eleger uma nova concepção política ao Brasil, é fundamental, e navegar em uma fina sintonia, entre a nobreza musical de Caetano, e o imperativo Marinar, é totalmente demais. Abraços a Marina e Caetano.

    Estou postando artigos da Campanha em meus sites, acompanhem:
    http://diversidadeemcultura.blogspot.com
    http://brasileconews.blogspot.com
    http://racionalnews.blogspot.com

  10. Beleza é Caetano. No terror da Ditadura, ele me deu uma entrevista no Teatro Anchieta em São Paulo para a TV Band e declarou com todas as palavras: “O AI-5 é abominável”. Evidentemente, o programa especial que eu fazia (Os Dramáticos Anos 70, TV Bandeirantes, junto com Gregório Bacic) foi pro ar, mas pós-censurado: ele deveria ser o primeiro de uma série de programas discutindo a realidade brasileira do momento. A série foi proibida pela censura. Mas desde então aumentou a minha admiração por Caetano Veloso, sempre sutil e guerreiro, taichichuan da poesia, da música, da vida.
    Com ele Marinamos em paz.

  11. Luiz Motta
    23/08/2010

    Só faltou falar da Marina

  12. José Carlos
    23/08/2010

    Lindo esse artigo! O primeiro panfleto político que é agradável de ler!

    Esse é um que vale a pena mandar pros amigos não eleitores da Marina, pois pelo menos se não convence, agrada!

  13. rosa
    22/08/2010

    Gostei muito bom Caetano

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Postado em 22/08/2010