Postado em 16/03/2010 por Equipe Marina | Categoria(s): Eco

Marina, boa surpresa [EDITORIAL, FOLHA DE SP]

6 Comentários


O COORDENADOR da pré-candidatura de Marina Silva (PV) à Presidência, Alfredo Sirkis, lançou mão de uma fórmula astuciosa para indicar o lugar da senadora no espectro ideológico: ela não se encontraria nem à esquerda, nem à direita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva -mas à frente.

A ideia de uma opção eleitoral “pós-Lula”, que resiste à desgastada e por vezes enganosa oposição entre petistas e tucanos, é uma estratégia pertinente.

Ajusta-se, antes de tudo, à marca da candidatura, que prescreve novas relações entre economia e ambiente – algo difícil de ser enquadrado nos surrados rótulos esquerda e direita. A pauta ambiental, aliás, desperta com frequência rejeições das duas alas, embora tenha-se tornado eleitoralmente vantajoso posar de defensor da natureza.

Essa ambiguidade é nítida na súbita “conversão” ao discurso contra o efeito estufa da ministra Dilma Rousseff -a “mãe” do desenvolvimentismo estatal. De maneira análoga, na oposição é comum a transigência com agressões ao ambiente, embora o governador José Serra também tenha anunciado metas de redução de emissões em São Paulo.

Mas se a presença de Marina cobra dos adversários mais atenção com a temática ecológica, sua candidatura, em sentido contrário, vê-se instada a apresentar propostas consistentes em outras áreas. É o que tem feito -e até aqui de modo mais claro do que os rivais. A entrevista com o possível vice da chapa, o empresário Guilherme Leal, que a Folha traz hoje, é prova disso.

Sabe-se que a candidata dará ênfase à educação; que defenderá uma concepção moderna de Estado, mais leve e eficiente; que será favorável à racionalização tributária; que preservará a autonomia do Banco Central; e que manterá o Bolsa Família.

Para quem imaginava uma postulação confinada a clichês verdes, Marina Silva vai-se revelando uma boa surpresa.

Publicado originalmente na Folha de São Paulo em 16/03/2010.

Comentários

  1. Marina Silva e o Pv formulam a proposta de superação da decadente polarização entre a esquerda e a direita, ambas inssustentáveis.
    Socioambientalismo Democrático com descentralização do poder político e da produção econômica.

  2. Alan Boccato
    17/03/2010

    Marina, e os bilionários e o hiperconsumo?

    É unanimidade que a possível candidatura da Senadora Marina Silva à Presidência da República fará com que a questão socioambiental deixe a retórica superficial, das palavras chave, dos jargões e das frases de efeito para que entremos efetivamente num debate de fundamentos. Mas será que Marina tratará de questões fundamentais para a sustentabilidade e a ética social? Será que realmente Marina representa uma alternativa para debatermos o modelo de organização socioeconômico no seu fundamento? Estas questões são levantadas pois até o presente não vi nem Marina nem os grupos da sociedade que estão brilhantemente fortalecendo sua campanha tocarem em dois temas da maior importância: concentração de renda e hiperconsumo e tudo o mais que deriva disso.

    Por um ponto de vista, pode-se considerar que esses dois temas já estão sendo tratados, pois a sinalização de uma chapa formada por um dos donos da Natura já traz à luz o tipo de tratamento que estes temas terão. Vivemos hoje numa sociedade do hiperconsumo. Essa é a forma que o capitalismo encontrou para sobreviver. Não se trata mais de suprir as necessidades humanas, pois quem tem necessidades não tem renda, mas quem tem renda não tem necessidades. Então criam-se as necessidades de consumo, ou melhor, do hiperconsumo. Porém, esse hiperconsumo gera impactos ambientais, por utilizar energia, matéria-prima e gerar resíduos, além de necessitar e de gerar concentração de renda, já que os hiperconsumidores necessitam ter renda para gastar e os donos das empresas hiperprodutoras vão acumulando a renda dos consumidores. E a equação é simples: quanto mais se acumula renda nas mãos de poucas famílias, mais falta nas mãos de muitas outras. Portanto, não dá para falar em sustentabilidade socioambiental sem tratarmos de hiperconsumo e da concentração de renda.

    Mas o que a chapa de Marina nos indica sobre isso? O provável vice-presidente é o 13o homem mais rico do Brasil e o 463o mais rico do mundo, com uma fortuna de 2.1 bilhões de dólares, segundo a Forbes. O sócio dele é o 12o mais rico, com uma fortuna de 2.2 bilhões. Ambos são donos de uma empresa que domina 22,1% do mercado de cosméticos no Brasil e que tem uma receita liquida de 4,4 bilhões de reais segundo a Folha de São Paulo. O lucro da Natura foi de R$ 683,9 milhões , segundo O Globo, e a empresa produz o 4o perfume mais vendido no mundo, segundo um de seus funcionários. A superestrutura de seu pátio industrial localizado num município de São Paulo, como já pude conhecer, é gigantesca, uma grande concentração de concreto, aço e energia que produzem cosméticos para serem distribuídos para todos os estados do Brasil, diversos países da América Latina e Europa. O que mantem essas cifras colossais em termos de Brasil é o hiperconsumo de cosméticos que é sustentado por um padrão estético uniformizado, que supervaloriza a aparência, numa abordagem estética que tem mais relação com o “parecer ser” (ou “parecer não ser”) do que com uma abordagem estética integrada com a saúde. Estética essa desvirtuada por pesados recursos de marketing, setor este, inclusive, que representa uma grande parcela dos gastos, maior do que o setor de desenvolvimento e tecnologia da empresa do provável vive-presidente.

    É amplamente sabido que essa empresa é referência em inovação de produtos com o viés socioambiental, que procura promover uma relação mais equilibrada e justa com as comunidades que fornecem suas matérias primas, procura lançar produtos que valorizem a sociobiodiversidade brasileira, etc. Mas isso tudo representa uma ínfima parte do grande negócio. E mais, essas práticas diferenciadas só podem ser sustentáveis pois tem pequena escala, não sendo assim o carro-chefe no faturamento e nas vendas, mas sim o carro-chefe do marketing.

    Mas, o objetivo deste texto não é analisar a pessoa ou a empresa em si, mas sim alguns fundamentos, ou contradições, que podem ficar claros dentro da campanha e da chapa de Marina Silva. Seu discurso da sustentabilidade socioambiental é mantenedor de utopias, dentre elas: a utopia de um padrão estético diversificado e integrado com a saúde; da redução do consumo de supérfulos; do desafio de viver melhor com menos; do fim do marketing infame, que aliena e endivida os consumidores; da produção em pequena escala para atender mercados locais; do fim da concentração de renda e de toda a luxúria de consumo; de se dar maior importância para o “ser” do que para o “aparentar ser”. Utopias estas que me instigam a apoiar Marina, mas que deveriam estar mais claras dentro de sua campanha e da composição de sua chapa.

    Será que teremos espaço para esse debate de fundamento numa campanha de Marina e a implementação de uma transição com sua desejável vitória? Ou será que ficaremos na utopia predominante de que é possível mantermos esse padrão de hiperconsumo, de uniformização estética, de infra-estruturas produtivas gigantescas, de mercados fornecedores e consumidores distantes, de lucros colossais, de mi, bilionários, mas que a tecnologia, os contratos de repartição de benefícios e as práticas de “responsabilidade” empresarial nos trarão a sustentabilidade socioambietal e a justiça social?

    *Alan Boccato está entusiasmado com a candidatura da Marina, mas não consegue entender a equação que possibilita a coexistencia dos bilionários, do marketing e do hiperconsumo com a sustentabilidade, a democracia e a justiça social.

  3. Giordano Bruno
    17/03/2010

    Ok, ok! Uma boa surpresa é bem verdade, mas temos de evitar as más surpresas! Caso a Osmarina ganhe ela terá de fazer acordos com tucanos e petistas bem como os nem à esquerda, nem à direita, mas sempre atrás pemedebistas! Esse é o grande problema das eleições, a maioria no congresso que já foi frequentado por ela e que deve saber como funciona!
    Quer governar? Maioria no congresso! Acordos e apertos de mão com quem não está nem aí para o país! Do contrário, acabará saindo pelas portas dos fundos!
    Outra coisa, aprenda com os erros cometidos pela Heloísa nas últimas eleições, não cometa os mesmos! No mais, sucesso! Depois volto aqui para comentar outros assuntos!

  4. Cacá Gouveia
    17/03/2010

    Ontem eu enviei uma mensagem à senadora, via Twitter, dizendo sobre minha falta de entusiasmo quanto as eleições de outubro, porém, acho que ela é uma boa via, além da polarização PT-PSDB.

  5. João Vitor
    17/03/2010

    Não consegui pegar a Folha ontem. Queria pelo especial do Glauco. Mas agora vejo que perdi duas coisas excelentes ontem. Sigo a Marina à um tempo e finalmente uma mídia importante apresentou-a aos menos informados.

  6. Marisa Fontana
    16/03/2010

    Boa surpresa pra quem não conhece Marina, mas no meu caso que votei nela pra Deputada Federal constituínte, Vereadora, deputada Estadual, Senadora e acompanho sua trajetória de luta isso não é novidade.

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Postado em 16/03/2010