Postado em 05/02/2010 por Marina | Categoria(s): Artigos

Pandora é aqui?

15 Comentários


O Ibama concedeu a licença prévia para a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Trata-se de um projeto muito polêmico, localizado no rio Xingu, no Pará, próximo ao município de Altamira, numa região conhecida como Volta Grande do Xingu. O nome deve-se ao desenho do rio que, visto de cima, assemelha-se a uma “ferradura”.

Por meio de barragens, as águas do rio serão desviadas para um canal que unirá as pontas mais próximas dessa “ferradura”. Ao final desse canal, as águas passarão pelas turbinas antes de retornarem ao seu curso normal.

Como tudo na Amazônia, os números que envolvem a obra são gigantescos. A quantidade de terra e pedra que será retirada na escavação do canal – cerca de 210 milhões de m³ – é um pouco menor da que foi removida na construção do Canal do Panamá. E ainda nem se definiu qual a destinação desse material.

Pelo leito do rio Xingu passa uma vazão de 23.000 m³/s de água no período de cheia. Um volume correspondente a quatro vezes a vazão, também nos períodos de cheia, das Cataratas do Iguaçu.

Os impactos socioambientais também terão essa mesma ordem de grandeza. E ainda não foram concluídos. Só sobre a fauna, segundo dados coletados durante o Estudo de Impacto Ambiental, podemos ter uma idéia. Na área existem 440 espécies de aves (algumas ameaçadas de extinção, como a arara-azul), 259 espécies de mamíferos (40 de porte médio ou grande), 174 de répteis e 387 de peixes.

Apenas a eficiência energética da usina não será tão grande. Uma obra colossal que custará certamente mais de R$ 30 bilhões – se somados todos os gastos, como o custo e a extensão da linha de transmissão, por exemplo – terá uma capacidade instalada de gerar, em média, 4.428 MW, em razão do que poderá ser suportado pelo regime hídrico do rio, nesta configuração do projeto. E não os 11.223 MW que estão sendo equivocadamente anunciados.

A energia média efetiva entregue ao sistema de distribuição será de 39% da capacidade máxima de geração, enquanto a recomendação técnica indica que essa eficiência seja de pelo menos 55%.

Para que Belo Monte possa apresentar um grau de eficiência energética compatível com as recomendações técnicas, seria necessária a construção de outras três hidrelétricas na bacia do rio Xingu, que teriam a função de regularizar a vazão do rio. Por ora, a construção dessas usinas foi descartada pelo governo porque estão projetadas para o coração da bacia, onde 40% das terras pertencem aos indígenas.

No entanto, a insistência em manter o projeto nessa dimensão (apesar de haver alternativa de barragem com quase metade da capacidade instalada e perda de pouco mais de 15% na potência média gerada) provoca forte desconfiança, tanto dos analistas como das comunidades e dos movimentos sociais envolvidos, de que a desistência de construir as outras três hidrelétricas seja apenas temporária.

A população indígena – são mais de 28 etnias naquela região – ficará prensada entre as cabeceiras dos rios que formam a bacia, hoje em processo acelerado de exploração econômica e com alto nível de desmatamento acumulado. E a barragem, além de interromper o fluxo migratório de várias espécies, vai alterar as características de vazão do rio.

É incrível que um empreendimento com esse nível de interferência em ambientes sensíveis seja idealizado sem um planejamento adequado quanto ao uso e à ocupação do território.

A solução de problemas dessa dimensão não pode ser delegada exclusivamente a uma empresa com interesse específico na exploração do potencial hidrelétrico, com todas as limitações conhecidas do processo de licenciamento.

Com a obra, são esperadas mais de 100 mil pessoas na região. Não há como dar conta do adensamento populacional que será provocado no meio da floresta amazônica, sem um planejamento para essa ocupação e um melhor ordenamento do território. Isso só pode ser alcançado através da elaboração de um Plano de Desenvolvimento Sustentável na região de abrangência da obra.

Essa foi uma grande omissão nesse processo, mas não a única. Não temos como deixar de indagar se não há outros aproveitamentos hidrelétricos que seriam mais recomendados, sob o ponto de vista dos impactos ambientais ou da eficiência energética.

No entanto, não há projetos com estudo de viabilidade técnica e econômica prontos para serem submetidos ao licenciamento ambiental. Apesar de o diagnóstico ser conhecido desde 2003, apenas em meados do ano passado foram finalizadas as primeiras revisões de inventário de bacia hidrográfica, como a do Tapajós.

Com isso, projetos polêmicos e com grandes impactos têm que ser analisados em prazos muitas vezes incompatíveis com o grau de rigor que deveriam ter, numa clara demonstração de como, muitas vezes, os ativos ambientais são afetados pela falta de planejamento de outros setores de governo.

Porém, nada foi mais afetado do que nosso compromisso ético frente à responsabilidade com o futuro de povos e culturas. Não foram sequer feitos estudos sobre os impactos que os povos indígenas terão. Só para exemplificar, o que significará para eles ter a vazão reduzida significativamente num trecho de 100km em função do desvio das águas para o canal? O plano de condicionantes tampouco menciona a regularização de duas Terras Indígenas (Parakanã e Arara), já bastante ameaçadas.

Estas e outras comunidades indígenas manifestam inconformidade por não terem sido ouvidas adequadamente, segundo os preceitos da Resolução 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ratificada pelo Brasil, mas nunca implementada para valer.

O Brasil possui um importante potencial de geração de energia hidrelétrica a ser desenvolvido. Mas as dificuldades em retomar o planejamento do setor na velocidade que possibilite escolhas e uma análise segura por parte do setor ambiental, somada à indisposição em discutir uma proposta de desenvolvimento sustentável para as obras de infraestrutura localizadas na Amazônia, à percepção de que o governo não faz o suficiente para melhorar a eficiência energética do sistema (não só na geração) e para desenvolver as energias alternativas, acaba por produzir conflitos agudos e processos equivocados, que poderiam ser evitados.

Apesar dos discursos em contrário, ainda estamos operando no padrão antigo, que considera o meio ambiente como entrave ao desenvolvimento. Temos ainda um longo dever de casa a ser feito para ingressarmos definitivamente no século 21. Quem pensa que a história relatada no filme Avatar só pode ocorrer em outro planeta, engana-se: Pandora também pode ser aqui.

Marina Silva é professora de ensino médio, senadora (PV-AC) e ex-ministra do Meio Ambiente.

Publicado originalmente no Terra Magazine

Comentários

  1. Cristiana
    21/04/2010

    Eu moro faz muitos anos fora do Brasil, mas sempre estou acompanhando minha amada Pátria. Ontem meu esposo me falou que foi concedida a construção dessa barragem, estou profundamente triste, acho que e uma decisão errónea, sera uma desgraça para a Fauna e Flora.

  2. joao.gaiva
    11/02/2010

    Senadora Marina sou um remanescente Pantaneiro como a Senhora da Floresta e luto contra a construção da hidrovia no Pantanal,justamente porque querem mexer nas curvas do nosso Rio Paraguai.Agora vem a pergunta porque não mexer nas curvas do rio? Segundo a Engenharia a velocidade da agua nao pode ser menor que 0,5 m/s(metros por segundo) e nem maior que 5,0 m/s,se for menor acaba açoreando o rio e se for maior cria mais velocidade e acaba drenando toda a Bacia Pantaneira,levando o Bioma ao desequelibrio.No caso do Rio Xingu a Curva da Volta Grande e que garante o equilibrio para manter a velocidade sustentavel do Rio Xingu,portanto a mesma verdade Pantaneira serve também para a verdade do Rio Xingu.

  3. Mariana Coimbra
    09/02/2010

    Resposta ao MIOLO FIRME: As informações técnicas estão nos relátorio da Eletrobrás. Você os encontra no link:
    http://www.eletrobras.gov.br/ELB/main.asp?View=%7B46763BB8-3B05-432F-A206-C8F93CC3BA90%7D

  4. João Flávio
    08/02/2010

    Senadora Marina, parabéns pelas belíssimo e assutador artigo publicado. Precisamos mais de pessoas como a senhora que elucida os fatos e propõem uma saída. Precisamos, de fato, entrar no século 21! E, para tanto, devemos mudar a ideia de que o meio ambiente é um entrave para o desenvolvimento. Necessitamos construir uma nova visão! Também sou um Silva e estou contigo, Marina.

  5. Dulce Vasconcellos
    07/02/2010

    Oi, Marina, não foi só você que achou que Pandora podia ser a Amazônia. Veja esse artigo da ambientalista Lori Pottinger (está em Inglês) publicado no Huffington Post em 21/Jan: http://www.huffingtonpost.com/lori-pottinger/emavatarem-should-brazil_b_430724.html

  6. Paulo Rocha
    07/02/2010

    Gostei muito do artigo sobre Belo Monte. Precisamos lutar para que esse projeto faraônico absurdo, não destrua uma das preciosidades “naturais” do mundo, que é a Volta Grande do Xingu. Precisamos deixar de ser um país “barrageiro” e nos tornarmos um país “solar”.

  7. Roberto Vieira
    07/02/2010

    Marina Silva é para mim e minha família um grande exemplo de honestidade, integridade , lealdade e amizade.
    Siga em frente Marina presidente, o Brasil precisa de pessoas assim na política.

  8. Vanessa
    06/02/2010

    Ser humano,
    Eu sinto e enxergo suas falas, como se estivesse numa conversa cara a cara. Habilidade a sua, que todos têm, mas poucos desenvolvem ou usam para o bem comum.
    Sobre o futuro Aproveitamento Hidrelétrico de Belo Monte. Compartilho as indagações e indignações. Porque assumir um pacote pronto de engenharia se hoje temos a nosso favor toda tecnologia, sabedoria, conhecimento e informação suficiente para inovar e desenvolver (e não crescer!!) com assentimento de todos??? Enxergo novas resoluções. Cadê as cabeças pensantes deste País? Façamos diferente.

  9. amauri oliveira
    06/02/2010

    Senti uma alegria ao ouvir linhas de raciocinio que sempre imaginem que são prioritárias p/iniciar a transformação no País.
    O mais agradável foi ver comparações do tipo “nunca antes”

  10. Johnny CC
    05/02/2010

    Excelente artigo Senadora. Recomendo que pelo menos para aqueles mais importantes sejam feitas cópias em inglês. Queremos repercussão mundo afora!

  11. Miolo Firme
    05/02/2010

    Gostaria de Saber com que base são constestadas as informações de eficiencia energética da usina apresentadas nos paragrafos 6 e 7? Grato.

  12. Monica Lepri
    05/02/2010

    Fazer o que pra chamar a atenção e engajar milhares de brasileir@s na defesa do rio da nossa aldeia?

    Tudo, tod@s, tão anestesiados…

    Quem sabe uma greve de fome coletiva?

  13. Eduardo Pimentel
    05/02/2010

    Muita coincidencia, justamente no momento em que foi concedida a licença ambiental o Operador do Sistema Elétrico Nacional alardeia dia a dia o record de consumo de energia elétrica. A notícia não deve ser falsa, mas é realmente intrigante o tamanho propaganda que se tem feito sobre esse fato que deveria ser interpretado como normal, tendo em vista as altas temperaturas no sudeste (maior consumidor de energia). Será que estamos mesmo a beira de um colapso energético a ponto de priorizarmos a produção de energia em face de toda uma sociedade e meio ambiente? Para mim trata-se de alarde para que o povo apoie a construção da Usina.

  14. daniel
    05/02/2010

    Concordo com vc completamente. Acho que os índios e animais tem todo o direito de ficarem onde estão e “não” procurar outras árvores como sugerem os vilões de avatar. No entanto, o caos social vai se instalar no país se nada for feito com relação a geração de energia elétrica. Qual a sua proposta para a geração de energia a curto/médio/longo prazo para suprir essa mesma demanda?

  15. Ellen
    05/02/2010

    Belo texto que define muito bem as implicações da usina de Belo Monte. Há algo que possa ser feito pelo povo para que ela não seja construida?

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Postado em 05/02/2010